A escravidão dos negros, africanos ou não, e dos indígenas desempenhou um papel crucial na construção da economia e da sociedade coloniais na América portuguesa desde o século XVI. O sistema escravista constituiu o mecanismo que possibilitou a colonização da América pelos portugueses dentro da lógica mercantilista típica do Antigo Regime europeu.
A colonização tinha a função, dentro das praticas mercantilistas, de ser um complemento à economia da metrópole, um mercado assegurado para os produtos vendidos por ela (a preços altos) e onde ela poderia comprar matérias-primas a preço baixo. Desde logo, vê-se que a função básica da colônia era enriquecer a metrópole, não gerar lucros para os colonos; estes eram cotidianamente explorados pelo próprio mecanismo do antigo sistema colonial.
Sendo assim, a metrópole sempre valorizou mais aquelas atividades que proporcionavam esse modelo de exploração, pois se ligavam diretamente ao mercado externo da colônia, como a agro-manufatura do açúcar, a produção de tabaco, a extração de drogas do sertão e a mineração aurífera e diamantífera. As demais atividades econômicas, por funcionarem internamente na colônia, com pouco envolvimento dos grandes comerciantes do reino (e gerando poucos lucros para a Coroa), não despertavam grande interesse do governo metropolitano. Uma das consequências disso foi que tais atividades foram constamente subrepresentadas nos documentos oficiais do Império Português, de modo que os historiadores brasileiros durante longo tempo também minimizaram a importância dessas atividades, como o pequeno comércio urbano, as trocas entre as regiões da colônia e a agricultura de subsistência.
Em todas essas atividades, a escravidão teve papel preponderante, todavia diferente do modo como funcionava segundo a perspectiva tradicional da historiografia. Até a década de 1980, era hegemônica entre os historiadores da escravidão no Brasil uma visão, de orientação marxista, que punha ênfase na violência própria das relações escravistas, a chamada história do tronco, que focalizava principalmente os castigos físicos aos escravos (a imagem do tronco aqui é emblemática), o patriarcalismo dos senhores, as fugas e a formação de quilombos pelos escravos. Essa corrente tem como imagem icôníca o chamado escravo do eito em meio a canaviais infindos na zona do açúcar.
A partir da década de 1980, iniciou-se na historiografia brasileira um amplo movimento revisionista inspirado na crítica da escola francesa à tradicional história positivista e ao marxismo. No que se refere à escravidão, a nova escola, agora cultural, passou a enfatizar os modos de resistência cotidiana dos escravos, procurando precisar como esses indivíduos marginalizados pela sociedade e sua estrutura cultural de poder negociavam com os seus superiores em um meio tão inóspito para atingir seus objetivos de liberdade e ascenção social. Assim, a história mais atual procura mostrar como escravos negros ou mestiços e libertos absorvam e se apropriavam dos valores dos brancos, como estrategia para adquirir a alforria.
A partir dessa nova concepção, focada nas experiências cotidianas dos escravos, e por meio do uso de documentos antes menosprezados pela pesquisa historiográfica - como testamentos, inventários
post-mortem e cartas de alforria - foram recuperadas facetas da vida dos escravos e escravas até então esquecidas (ou desconsideradas) pelos historiadores. Nos centros urbanos da América portuguesa, figuras comuns eram os chamados escravos de ganho. Eles desafiam a noção tradicional do escravo submetido integralmente ao senhor, de quem nunca se distanciva. Escravos de ganho tinham grande autonomia e mobilidade nos centros urbanos, uma vez que seus senhores os autorizavam a deixar a casa e se movimentar pela cidade desempenhando funções variadas. Escravos de ganho podiam ser cirurgiões-barbeiros, oficiais mecânicos diversos, vendedores ambulantes, tigres (escravos que transportavam tonéis com os dejetos orgânicos produzidos pelas familias de seus senhores para serem despejados em rios ou no oceano; o nome da função vinha das listras de fezes que se formavam no corpo dos cativos ao longo do trabalho) negras de tabuleiro ou prostitutas.
A vantagem para os senhores ao empregar seu cativo como escravo de ganho era que a maior parte dos ganhos do escravo ou da escrava em seus trabalhos de rua eram apropriados pelos seus donos, de modo que estes garantiam uma forma de renda sem ter que trabalhar, na verdade sem ter que sequer sair de suas casas. Pesquisas feitas com a documentação referente às vilas de Minas Gerais no século XVIII mostram como a posse de escravos era disseminada pelos vários estratos da sociedade e que a maioria dos senhores possuíam poucos cativos, a mais das vezes empregados como escravos de ganho. Isso desmente a tradicional noção do grande senhor de escravos com um vasto plantel de cativos empregados na lavoura de exportação como sendo a figura mais representativa do dono de escravos no período colonial.
Estudos de historiadores como Eduardo França Paiva da UFMG revelaram estratégias de resistências dos escravos que exigiam a assimilação das regras e valores do mundo dos brancos. O objetivo de muitos, para não dizer todos, escravos era adquirir a alforria, a carta de liberdade em relação ao seu senhor. Contudo, comprar a alforria de uma vez só não era factível para todos os escravos, por isso, foi criado o sistema da quartação ou coartação. Através dele, o cativo podia parcelar o pagamento da sua alforria ao senhor e, entre o pagamento de cada parcela, se movimentar pela vila, arraial ou cidade, ou mesmo migrar para outras localidades, em busca de melhores condições de trabalho para acumular riquezas suficientes para pagar o restante de sua alforria ao senhor. O sistema da quartação mostra como os escravos aceitavam viver segundo as normas dos brancos, pois apenas aqueles que se mostravam obedientes e bem integrados à sociedade colonial com suas regras de desigualdade social tinham a possibilidade de realizar tal contrato com seus senhores, pois ofereciam a segurança de que não iriam fugir ou romper violentamente com a sociedade que, mesmo oprimindo-os, oferecia algumas, poucas, oportunidades de ascensão.
Uma outra figura muito comum nas vilas coloniais eram as chamadas negras de tabuleiro. Essas eram escravas ou libertas que tiravam seu sustento da venda de doces e produtos variados nas ruelas das vilas e arraiais. Elas desempenhavam papel importante no abastecimento das localidades, mas não eram bem vistas pelas autoridades coloniais, especialmente na zona mineradora. Suspeitava-se que elas participariam do contrabando do ouro, pois circulavam pelas áreas de extração com seus tabuleiros repletos de produtos - bons para contrabandear o ouro recém extraído.
Ainda que a tônica da nova historiografia seja investigar como escravos e libertos inseriam-se na sociedade colonial para atingir seus objetivos, alguns autores procuram mostrar como a violência não pode ser esquecida em se tratando de relações escravistas. Escravos de ambos os sexos estavam em uma frágil posição social, o que os tornavam vulneráveis a violências sexuais por parte dos senhores. Trabalhos de historiadores como Ronaldo Vainfas e Luiz Mott flagram senhores abusando sexualmente de escravos e escravas, para isso fazendo valer o seu poder patriarcal sobre os cativos. Certamente, muitos encontros entre senhores e escravas ou escravos eram consensuais de ambas as partes, todavia, analisando-se o teor de vários processos da Santa Inquisição (o tribunal ecleiástico encarregado, entre outras, de zelar pela pureza dos costumes sexuais dos portugueses no Reino e nas colônias), como fizeram os autores citados, percebe-se que o uso da força e da intimidação foi normal nas relações entre senhores e sua escravaria. Também eram comuns mutilações feitas às escravas jovens e bonitas pelas sinhás (as esposas dos senhores) precocemente envelhecidas pela vida de constante ócio e inatividade enciumadas das atenções que as escravas recebiam dos maridos, filhos e demais homens da familia.
Desse modo, pode-se perceber que a escravidão na América portuguesa foi um fenômeno complexo, que não pode ser reduzido apenas ao antagonismo entre duas classes sociais, comporta negociações entre dominadores e dominados e o uso de variados subterfúgios para vencer a estrutura sócio-política-cultural opressora, muitas vezes mesclando-se a elas. O que não significa que não houvesse violência na escravidão, ao contrário, agressões físicas, morais e psicológicas eram comuns e até certo ponto aceitáveis na sociedade escravista, afinal ela trazia a violência em seu âmago, uma vez que escravizar um homem ou uma mulher, velho ou criança, era roubá-los de sua humanidade, reduzindo-os a meras peças a serem usadas em alguma atividade econômica para lucro do seu senhor.