segunda-feira, 18 de abril de 2011

A marquesa & a imperatriz - Parte 5 - Pode uma plebéia ser coroada imperatriz? Ou o fim casual de uma paixão

Com a morte da imperatriz, iniciou-se uma nova fase na vida em comum de Dom Pedro e Dona Domitila, que estavam cada vez mais unidos, suspeitou-se na corte no período que a marquesa teve inclusive ambições de casar-se com o monarca. Mal sabia a marquesa de Santos que seus dias de mando na corte do Rio de Janeiro estavam contados, pois o imperador logo deu ordens para seus embaixadores iniciarem as negociações na Europa para um novo casamento. Tais negociações foram bastante complicadas, pois atuou contra elas a Casa D’Áustria, possivelmente em represália ao modo como Dom Pedro tratara a filha querida do imperador Francisco I. A má fama do imperador era também um sério empecilho às negociações das novas bodas, ainda mais porque ele não rompera seu relacionamento com a marquesa, este, pelo contrário, parecia cada vez mais forte, como a excursão dos dois à fazenda do padre Correia no verão de 1827 parece mostrar. Não só a situação na Europa era complicada, a continuidade do relacionamento colocava a opinião pública cada vez mais contra Dom Pedro. Por fim, preponderou o orgulho de Pedro da sua condição de filho e descendente de reis, de príncipe, de rei, de imperador, de monarca, de soberano, que o fazia acreditar na necessidade vital de se casar apenas com uma mulher de linhagem igualmente elevada. Assim, para possibilitar o êxito das negociações, ele finalmente toma a decisão política necessária, afastar Domitila da corte e entregar a duquesa de Goiás a quem fosse hierarquicamente apropriada para educá-la. As suas ligações, que se estenderam até 1828, são cortadas em uma carta do imperador, “O marquês de Barbacena é chegado e sua vinda é motivada pela necessidade de me expor de viva voz os entraves que tem havido ao meu casamento em conseqüência de sua estadia aqui na Corte (...) de onde se torna indispensável sair por este mês até o meado do futuro junho o mais tardar (...) essa é a minha derradeira resolução bem como carta que lhe escrevo a não me responder com aquela obediência e respeito que lhe cumpre como minha súdita e principalmente criada”[1].
A 27 de junho de 1828, Domitila, a marquesa de Santos, partia para São Paulo.
Segue abaixo transcrição de uma das muitas cartas de D. Pedro I à marquesa de Santos:

"Meu amor,
minha Titília
        Eu não sei já onde tenho a 
minha cabeça e por pouco não perco o juízo,
considerando em tantas coisas.
   O amor que lhe tenho está provado com as provas
irrefragáveis. Se ele era grande, hoje, com a nova
prova por mecê dada da sua amizade para comigo
e constância, meu coração fica muito mais cativado
e procurarei dar cada vez mais demonstrações do
quanto a estimo e lhe sou obrigado e agradecido, pois
vejo e conheço o quanto me tem sofrido, tudo pro-
cedido do grande amor que me tem e que eu prometo
pagar com outro igual. Quanto ao que me diz de 
ingrata, respondo que sou infeliz, e que pouco du-
rarei para lhe não dar mais que sentir, pois a minha
aflição de hoje tem sido tão forte que sinto meus 
nervos tão afetados que bem temo algum acidente.
  Mártir da verdade, sou infeliz, não comporta que-
rer-lhe muito, muito e muito. As suas palavras para
mim não são evangelhos e muito acredito nelas, tan-
to como eu mesmo. Sinto que me diga uma in-
grata não deve ser acreditada, pois eu nunca disse que
a não acreditava, bem pelo contrário.
    Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus lhe peço
que não me despreze por lhe dizer a verdade e me
perdoe algum excesso que tivesse no momento de me
dizer "é o que se pode esperar dos amigos". À tarde
vou aos seus pés e deles não me levanto sem que
mecê me perdoe, pois eu, se isso não acontecer, re-
ceio muito de mim, porque me vejo num estado
triste e sem me sair da cabeça que mecê me ficou...
não sei dizer mais, pois me falta prosa, única vez em
minha vida, só sei dizer que por Deus que está no
céu e que eu não me salve se a não estimo, se lhe não
quero bem e se até a não (não é lisonja) a não adoro.
    Assim confirmo como homem de palavra, como

         Seu verdadeiro amante fiel, constante, desvelado
         e agradecido e como seu
Imperador

Boa Vista, 18 4/8 25"²



Túmulo da Marquesa de Santos em São Paulo

Detalhe do jazigo da marquesa

[1] Idem, 743.
[2] PEDRO I, imperador do Brasil. Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos. Alberto Rangel, Notas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

A marquesa & a imperatriz - Parte 4 - A ascensão da marquesa e a queda da imperatriz

A situação política em 1826 era muito complicada e adversa ao imperador, a guerra no Sul, o pagamento da indenização a Portugal pelo reconhecimento da independência, a divisão entre portugueses e brasileiros, em acirrada competição pelos melhores cargos na máquina pública, tudo isso fizera cair a popularidade de Dom Pedro, e a sua ligação com a viscondessa de Santos era aos olhos do povo tão prejudicial à nação quanto os demais problemas citados acima. Mostrando mais uma vez sua impulsividade e desprezo a qualquer tentativa de limitar seu poder, Dom Pedro instala Domitila em um palacete vizinho ao paço, facilitando sua união a ela, que satisfazia assim sua sede por uma vida de luxo e fausto. Em seguida, o imperador faz o impensável, decide reconhecer sua filha com Domitila, colocando-a na posição que sua ascendência paterna exige. No aniversário de dois anos de Dona Maria Isabel, seu pai a reconheceu através do documento seguinte: “Declaro que Houve uma Filha de mulher nobre e limpa de sangue, a qual ordenei que se chamasse Donas Maria Isabel de Alcântara Brasileira, e a mandei criar na casa do Gentil Homem Da Minha Imperial Câmara João de Castro Canto e Melo. E para que isto a todo tempo conste, Faço esta expressa Declaração, que será registrada nos livros da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, ficando o original em mãos do mesmo Gentil Homem da Imperial Câmara para ser devidamente entregue à dita minha Filha, com seu título. Palácio do Rio de Janeiro, vinte e quatro de maio de mil oitocentos e vinte e seis, Quinto do Império e da Independência. Imperador”[1]. Além de reconhecê-la, Dom Pedro ainda deu à filha o título de duquesa de Goiás e o tratamento por alteza. Tudo foi comemorado com uma festa esplendorosa, em que brilhou a estrela da viscondessa de Santos.
Outra afronta pública à imperatriz foi o episódio da festa em comemoração do reconhecimento do príncipe imperial na qualidade de herdeiro do Trono, a 24 de agosto. A viscondessa e sua filha foram colocadas em posições semelhantes à da imperatriz e seus filhos, o que chocou grandemente os convivas e aumentou o sentimento de inferioridade de Dona Leopoldina. Seguramente, os últimos meses foram de grande sofrimento para a imperatriz, que sofria principalmente por ver seus filhos misturados aos filhos da outra, que ela tratava em suas cartas por bruxa ou feiticeira. Os sofrimentos causaram mudanças profundas no comportamento de Dona Leopoldina, ela tornou-se desconfiada das pessoas, pesava todas as palavras antes de manifestá-las e pensava criticamente e por conta própria sobre tudo o que via e vivia. Julgava a maior parte das pessoas da corte como tendo caráter corrompido, não fazendo amigas, e retraindo-se basicamente para o contato com o marido e os filhos. Torna-se deveras cautelosa, pois tinha que constantemente lutar contra intrigas e aborrecimentos. Mas tudo fazia por amor a Dom Pedro. A partir de meados de 1826, a relação dos cônjuges deteriora-se rapidamente, Dona Leopoldina pensou em abandonar o paço e internar-se no Convento da Ajuda, enquanto esperasse por uma decisão do pai a respeito de seu destino, pois lhe pedira abrigo para retornar à Áustria. Todavia, a imperatriz não chegou a saber a resposta do pai, que, aliás, dificilmente seria positiva, que preso à rede política de Metternich nada poderia fazer.
Os sofrimentos da imperatriz eram maiores que apenas os ciúmes e o amor frustrado, deviam-se também aos constantes apertos financeiros a que lhe sujeitava o imperador, extremamente econômico. Ela era obrigada a contrair empréstimos com parentes, amigos, servidores e até mesmo agiotas para poder honrar seus compromissos e manter os seus gastos com obras beneficentes e de caridade, ditadas pela formação moral e religiosa da imperatriz, mas que Dom Pedro considerava desperdícios. Mas para Domitila, o imperador era bastante liberal, sustentando sua vida luxuosa.
Assim, Dona Leopoldina padecia por seu amor, por sua permanente crise financeira, por sua solidão, como já se disse, sua vida na corte restringiu-se a Dom Pedro, que ao se afastar, deixou-a inteiramente só, e também por males físicos. Ao retornar da Bahia em final de abril, ela já se queixara de dores reumáticas nos braços e de um entorpecimento da mão direita, essas mesmas dores retornaram em junho. Cada vez mais fraca, Leopoldina enfrentou seus últimos sofrimentos com a elevação de Domitila à condição de Marquesa de Santos e uma grave ofensa feita por Pedro antes de sua viagem ao Sul do país, para vistoriar as condições do exército. Desse incidente, a imperatriz queixou-se na sua carta de despedida, “ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças”[2]. Não se pode dizer se a imperatriz recebera do marido o pontapé no ventre que a lenda popular afirma, o que não seria completamente estranho à personalidade de Dom Pedro, mas não há texto confiável que corrobore essa hipótese. Mais provável é que Dom Pedro tenha feito um desagravo à imperatriz, agravado aos olhos da sofredora esposa por ter sido na frente da amante, identificada como a causa de todos os seus padecimentos.
Assim, enquanto o marido estava no Sul, a imperatriz entrou em agonia, com febres e dores reumáticas, insônias, agitação, dores de cabeça, fastio da gravidez bastante complicada, pois fazia menos de um ano que dera à luz o último filho. Dona Leopoldina sofre um aborto e seu quadro piora, vindo a falecer no dia 17 de dezembro pela manhã. Toda a corte culpa o imperador e a marquesa pela morte da imperatriz.
Em sua carta de despedida, Dona Leopoldina igualmente culpa Domitila pelas suas desgraças e pede ajuda aos filhos órfãos de mãe, como no trecho que segue: “(...) chegada no último ponto de minha vida no meio dos maiores sofrimentos (...) ouvi o grito de uma vítima que de vós reclama – não vingança – mas piedade e socorro do fraternal afeto para inocentes filhos que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autoras das minhas desgraças (...) há quase quatro anos, minha adorada mana (...) por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro”[3]. Por último, a imperatriz agonizante reafirma seu amor ao marido que tanto a fizera sofrer.
A dor de Dom Pedro ao saber da morte da esposa é sincera, em um soneto que compõe para expressar sua dor, o imperador reconhece que fora amado “com o maior amor”, mas que na esposa admirava “a honestidade”, nela vendo um exemplo “D’honra, candura, bonomia e caridade”[4]. Todavia, nesse poema, Dom Pedro não reconhece as dores que infligira à esposa morta.



Miniatura retratando a Marquesa de Santos (col. particular)




[1] Idem, p. 677.
[2] Idem, p 691.
[3] Idem, p 688.
[4] Idem, p 695.

A marquesa & a imperatriz - Parte 3 - A chegada de Domitila ao Rio de Janeiro

O isolamento político, social e afetivo da imperatriz D. Leopoldina não só continuou após a Independência, em final de 1822, como se agravou de forma acelerada a partir de 1824, não coincidentemente o início da escalada triunfal de Dona Domitila na cena social e política do Rio de Janeiro. A primeira residência de Domitila no Rio foi uma casa modesta no bairro de Mata-porcos, bem escondida dos olhos da corte, provavelmente em inícios de 1823. O seu relacionamento íntimo com Dom Pedro começou em 30 de agosto de 1822, durante a viagem que o então príncipe fizera a São Paulo para pacificar a província e articular o apoio ao movimento de independência. O imperador tentou esconder Domitila do conhecimento da imperatriz e da corte durante os primeiros meses da relação, mas esse era um efeito impossível em uma cidade como o Rio de Janeiro, especialmente tratando-se da família imperial. Conta-se que a esposa e a amante foram rapidamente apresentadas, provavelmente por um irmão de Domitila, então ajudante de Dom Pedro. Provavelmente já tinha sido sussurrada aos ouvidos da imperatriz a natureza da relação da jovem desquitada e do imperador. Mas a imperatriz consideraria rebaixar-se tomar uma atitude firme, o que poderia provocar também a ira do imperador e jogá-lo mais ainda nos braços da amante. E como nada ainda indicava que esse relacionamento diferenciar-se-ia dos muitos outros do imperador, não pareceu necessário à imperatriz fazer qualquer oposição à Dona Domitila.
Antes de detalhar-se a ascensão de Domitila nos anos seguintes, é mister caracterizar a natureza da sua relação com o imperador, o que é um assunto enormemente polêmico entre os historiadores do período e os biógrafos da imperatriz, do imperador ou de Domitila, a marquesa de Santos. Todos partem do ponto de que ligação maior e inicial entre os amantes era o sexo, baseados na vida devassa do imperador antes mesmo de conhecer Domitila e nas cartas dele à amante, repletas de referências a situações íntimas do casal. Porém, creio ser um preconceito ditado por conservadorismo e puritanismo associar isso a falhas de caráter de Domitila; quem sabe o próprio Gilberto Freyre já não tenha dado uma pista do porque a marquesa foi tratada como a vilã e Dona Leopoldina como a vítima injustiçada; Domitila ousou não se conformar com o papel que a sociedade lhe ditara, ousou unir-se ao homem que desejou, seja por sexo, amor ou ambição, ousou jogar o masculino jogo da política nacional e, usando das armas de que dispunha, sua influência sobre o imperador, chegou a governar, de certa maneira, o jovem Império do Brasil. Por ser uma mulher à frente de seu tempo, Domitila foi cruelmente julgada não só por seus contemporâneos, mas também pela historiografia especializada. Isso seguramente levanta questionamentos a respeito da alegada neutralidade de um método de pesquisa histórica, se é realmente possível um historiador livrar-se das idiossincrasias próprias de seu tempo no seu difícil trabalho de construção de uma narrativa do passado. Essa é mais uma face do sempre presente risco de cometer-se anacronismos. Não falo que o historiador deva suprir o desprezo com que a sociedade tratou mulheres como Domitila, o que seria também uma simplificação indevida do passado histórico, mas ele igualmente não deve cometer juízos de valores, antes tentar compreender traços da psicologia das personagens, que não precisam estar de acordo com padrões sociais idealizados.
Feitas essas considerações, retornemos à relação de Dom Pedro e Dona Domitila. Elas provavelmente eram mais que puramente sexuais, nem tão pouco eram romancescas, de amores ideais, antes bastante comuns e até plebéias, bem em harmonia com a natureza simples de Dom Pedro. Ainda considerando a natureza de Dom Pedro e suas cartas à Domitila, é seguro dizer que havia muito sexo, e muito prazeroso, mas com certeza entremeado ao cotidiano. Não há nada de estranho em pensar uma relação extraconjugal motivada tanto por sexo quanto por amor. Em muitas de suas cartas a Domitila, Dom Pedro se subscreve como amigo e amante, tratando-a de meu amor, amiga, filha. Na carta de quatro de agosto de 1825 (que segue abaixo em anexo), o imperador deixa bem claro seus sentimentos de amor por Domitila. Infelizmente não se conservaram as cartas de Domitila a Dom Pedro, razão porque é impossível ter-se certeza dos seus sentimentos pelo imperador. O que se pode saber é que não cabe julgá-la apenas como uma mulher pérfida, manipuladora e ambiciosa sim, mas isso não significa que ela amasse o imperador.
A ascensão social de Domitila começou com a sua elevação, e a da irmã Ana Cândida, a damas do paço em 1824. Essa atitude é contraditória do modo inicial com que Dom Pedro tratara a amante, procurando escondê-la dos olhos da imperatriz, e é evidente que no estreito ambiente do paço seria impossível manter em segredo a relação dos amantes, e o convívio diário tornar-se-ia um suplício para a imperatriz. Portanto, é necessário perguntar-se o que mudou na disposição do imperador. A resposta mais elementar é que crescera a influência da amante sobre ele, e ela passou a demandar sua inclusão nas altas rodas da corte, mas é interessante relacionar essa alteração com o nascimento da primeira filha dos dois, Dona Isabel Maria, nascida no Rio de Janeiro a 23 de maio de 1824, por maiores que fossem todas as falhas de caráter de Dom Pedro, ninguém pode cometer a injustiça de chamá-lo de mau pai, pelos filhos ele costumeiramente fazia todos os sacrifícios, não moveria meio mundo em uma guerra civil para destronar o irmão e retomar o trono de Portugal para a filha mais velha, Dona Maria da Glória? Tendo ele mesmo uma mentalidade profundamente patriarcal, o imperador devia saber a vida que sua filha levaria, indelevelmente marcada como “bastarda”, e não há dúvida que ele não desejaria que uma filha do imperador do Brasil e descendente dos reis de Portugal fosse menosprezada socialmente. Pode ter sido por amor à filha, e também por pressão de Domitila, que Dom Pedro foi progressivamente perdendo todos os escrúpulos e deixou de esconder sua amante, tornando a relação pública.
De dama do paço, Domitila foi elevada por Dom Pedro a primeira camarista da imperatriz Leopoldina. O sofrimento dessa só cresceria daí em diante, pois tinha que conviver com a humilhação pública e cotidiana do poder da amante, cada vez mais presente inclusive nas solenidades do governo. No dia 12 de outubro de 1825, Domitila é agraciada pelo imperador com o título de viscondessa dos Santos, uma clara alfinetada em José Bonifácio, um dos muitos a criticar a viscondessa, levantando dúvidas a respeito de sua influência no governo através do imperador. Com certeza a imperatriz tinha ciência das relações de sua dama com seu marido a essa altura, mas seu coração de esposa apaixonada, da mesma forma que desculpara as falhas do marido no início do casamento, se recusava a realmente acreditar que o tão amado Pedro poderia fazê-la sofrer tanto. Foi durante a viagem à Bahia feita pelo imperador e sua corte em fevereiro e março de 1826 que destruiu todas as ilusões de Dona Leopoldina. Se no paço era difícil evitar Domitila, presas ambas e o imperador em um navio por semanas, é certo que Dona Leopoldina deve ter visto com os próprios olhos o marido e amante juntos. Para uma mulher apaixonada, inteiramente devotada ao marido e aos filhos, tal visão deve ter sido como uma facada no peito.
O regresso da viagem à Bahia trouxe as três personagens para um cenário um tanto diferente, não havia mais nenhuma necessidade de sigilo entre a viscondessa e o imperador, pois se a esposa já sabia e recusava-se a tomar medidas extremas, não havia mal em tornar de uma vez por todas público o amor entre eles, assim pensou Dom Pedro, cada vez mais embriagado de paixão e poder. Octavio Tarquínio de Sousa relata a influência de Domitila nesse período, “o certo é que o prestígio de D. Domitila crescia sempre, e que o imperador, dominado por um alucinante erotismo, prescindia do recato elementar e punha de parte, nas manifestações públicas à amante preferida, qualquer cuidado que significasse acatamento à suscetibilidade moral de seus súditos ou aos melindres de sua mulher, a imperatriz D. Leopoldina”[1].

Detalhe de pintura da Marquesa de Santos


[1] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 3, Tomo II, p 676 (História dos Fundadores do Império).

A marquesa & a imperatriz - Parte 2: o noivado e o casamento dos príncipes e os primeiros tempos no Paço Real

Ao analisar-se as relações pessoais dos membros da família imperial, é preciso levar em consideração a posição única dessa família na sociedade brasileira, cuja figura paterna é o chefe dos Poderes Executivo e Moderador e o símbolo da Nação – o que lhe dá uma influência no imaginário popular bastante poderosa. Por carregar um simbolismo tão forte em si, da família imperial eram esperados comportamentos e ações reflexas da idealização dela construída, nas quais estavam embutidos sentimentos profundamente enraizados no imaginário da jovem Nação, tais como Honra, Decência, Coragem, Honestidade e outros, além disso, os membros da família real não podiam deixar de representar idealmente os papéis de Homem-Marido-Pai, no caso de Dom Pedro, e Mulher-Esposa-Mãe, no de Dona Leopoldina. Prova disso são tanto a acentuada queda de popularidade do imperador quando o seu relacionamento com Dona Domitila tornou-se demasiado público, para o maior sofrimento de    Dona Leopoldina, quanto à dor demonstrada pelo povo do Rio de Janeiro na ocasião da morte da imperatriz, “Quem tomará agora o partido dos negros? Nossa mãe se foi!” [1], gritaram pelas ruas cariocas os pobres a quem Dona Leopoldina sempre socorrera, a custo de privações próprias como se verá. Eis porque todos os passos da família imperial eram controlados pela sociedade, seja através dos jornais, da Assembléia Legislativa, órgão que estipulava a renda de cada membro da família, ou da fofoca e da maledicência que corria solta na Corte.
Dessa forma, pode-se entender porque um conjunto de relações de natureza tão íntima – as de uma esposa e da amante de seu marido, e as delas com este – atingiu tamanha publicidade, tendo sido matéria constante inclusive de jornais europeus, e teve desdobramentos políticos os mais variados e importantes. Para o entendimento da forma como se relacionaram imperatriz e marquesa, é necessário entender a relação de ambas com o ponto que tinham em comum, obviamente, Dom Pedro I. O casamento de Dom Pedro, à época príncipe herdeiro do Império Luso-Brasileiro, e de Dona Leopoldina, arquiduquesa austríaca, filha do imperador Francisco I da Casa dos Habsburgos, na ocasião a mais poderosa potência terrestre da Europa, foi um arranjo diplomático como costumavam ser todos os casamentos da realeza; modos de se efetuarem alianças entre os Estados. E na conjuntura de 1815 a 1817, tempo que duraram as negociações do matrimônio, Portugal precisa bastante de uma aliança forte na Europa para defender seus interesses no Congresso de Viena. O todo poderoso ministro austríaco Metternich desenhara uma política ultraconservadora, concretizada na Santa Aliança, e pressionava Dom João a retornar à Europa e a retirar suas tropas da Banda Oriental. O príncipe regente desejava formar uma aliança com a Áustria que lhe permitisse prolongar sua estada no Brasil, agora já Reino Unido desde a Carta Lei de 16 de dezembro de 1815, e que anuísse as suas ambições no estuário do Prata. Metternich dera essas garantias a Dom João e prometera proteger Portugal, no caso da Espanha tentar anexá-lo, pois lhe parecia bastante vantajoso incluir o Brasil, um imenso reino americano, na sua rede antiliberal. Acertados os termos da aliança, restava pedir a mão da arquiduquesa solenemente, redigir o contrato de casamento, a ser celebrado por procuração e receber a futura rainha do Reino Unido a bordo da frota que a conduziria ao Brasil. Ao Marquês de Marialva, Dom Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho, coube todas essas tarefas, que ele realizou excelentemente, fazendo brotar na jovem noiva o amor por seu consorte real, a custa, é verdade, de algumas mentiras a respeito do caráter e interesses de Dom Pedro.
No entanto, as mentiras de Marialva, apenas facilitaram a ocorrência de algo a que se dispunha Dona Leopoldina pela sua formação moral e religiosa, como bem explica Carlos H. Oberacker Jr.na sua excelente biografia da imperatriz, “como se vê a educação dava os seus frutos; seguir a vontade dos pais em todos os assuntos e, de preferência, quanto à escolha do marido era o mesmo que cumprir a vontade de Deus que desta maneira não podia deixar de proporcionar a sua benção”[2]. Na educação das princesas da Casa D’Áustria estava fortemente presente a noção do Dever, associado a uma concepção de vida abnegada ao bem do Estado. Era um Dever religioso cumprir as ordens paternas ou do marido, pois assim está escrito no Livro Sagrado, e também moral, pois o pai-imperador saberá exigir as ações que resultarão no bem maior do país. E como obedecer era o que competia às princesas, fazendo-o elas assegurariam necessariamente sua felicidade. Assim, estava bem disposta Dona Leopoldina a casar-se no Brasil, inclusive pelos seus interesses intelectuais nas áreas de botânica, zoologia e mineralogia, que encontrariam na nova pátria uma fonte inesgotável de descobertas.
Seja devido às mentiras de Marialva ou à sua formação moral e religiosa, o fato é que Dona Leopoldina começara a se apaixonar por Dom Pedro ainda na Áustria, como demonstram sua disposição a aprender tudo que poderia agradar ao esposo, como a história e a língua de Portugal, a equitação, pois lhe dissera Marialva que, no Brasil, “todas as princesas andam tão bem a cavalo quanto picadores”[3], e a música, uma grande paixão de Dom Pedro. Na véspera de sua partida para o Brasil, no porto de Liorne, Itália, escrevera Dona Leopoldina à amiga condessa de Lazansky, “embarco com a resolução firme de fazer a felicidade do príncipe, meu esposo e de o tornar feliz e de me fazer amada por todos que me rodeiam”[4]. Todavia, estava Dona Leopoldina alertada por sua querida irmã Maria Luísa, ex-imperatriz de França, de que poderia haver felicidade sem amor, como no trecho seguinte: “rogo-te, no entanto, em nome do nosso amor de irmãs, não imaginar o futuro demasiadamente belo. Nós que não podemos escolher, não devemos nem olhar para as qualidades do físico nem para as do espírito – quando as encontramos, é sorte (não se deve acreditar naturalmente em tudo o que a gente diz), quando não as encontramos, também podemos ser felizes. A consciência de ter cumprido o seu dever, múltiplas e variegadas ocupações, a educação das próprias crianças, dão certo sossego de alma, ânimo sereno o que é a única verdadeira felicidade do mundo”[5]. Mas de que valem os sábios e prudentes conselhos de uma irmã experimentada das agruras do mundo para uma jovem noiva apaixonada?
Dona Leopoldina amou Dom Pedro mesmo antes de o conhecer, e o encontro tão esperado, que se deu no dia 5 de novembro de 1817, não diminui em nada esse sentimento, muito embora as intrigas da corte portuguesa, que tantos pesares ainda dariam à princesa, imediatamente tentassem separar o casal real. Logo chegou aos ouvidos de Dona Leopoldina a história do envolvimento do príncipe com a dançarina francesa Noemi Thierry, e da maneira terrível que se deu a separação, imposta pelo pai para facilitar as negociações do casamento. Frustraram-se, porém, os intrigantes, pois não estava no caráter da princesa tomar qualquer medida mais firme contra seu marido, e a sua reação a essa fofoca pode ter sido o início das boas relações que manteve o casal no tempo anterior ao fulminante encontro entre o príncipe e Dona Domitila.
Dona Leopoldina ao invés de se zangar ou demonstrar ciúmes, que provavelmente sentira, pois mesmo sendo princesa, era ainda humana, tratou o marido com bondade e doçura, procurando sempre se mostrar interessada nos vários aspectos da vida do marido, habituando-se a acompanhá-lo em seus passeios a cavalo, tocando piano para ele e ouvindo-o tocar os vários instrumentos que ele tocava, na verdade, a música era um dom inato do príncipe, que, além de tocar quase todos os instrumentos, cantava e compunha, embora sempre de maneira um tanto amadora, por não ter sabido cultivar bem o dom. A inglesa Maria Graham, que fora por um tempo camareira de Dona Leopoldina, já imperatriz, mas que se afastara do paço por exigência de Dom Pedro, assim resumiu os primeiro tempos do casamento dos príncipes: “Ela se tornou sua companheira constante nos passeios e excursões pelas florestas selvagens que envolvem o Rio por todos os lados, e nos estudos que ele prosseguiu com maior ardor do que antes sob a direção da esposa. A determinação desta, de não magoar ou chocar uma alma recém-ferida, obteve senão a mais calorosa afeição do marido, ao menos sua total confiança e completa estima”[6]. Assim percebe-se que Dom Pedro veio a amar sua esposa, ainda que de forma diversa de como amaria Domitila, pois seu conceito de mulher não se desligava da beleza física e do sexo. A questão da beleza de Dona Leopoldina é deveras polêmica; os embaixadores portugueses responsáveis pela articulação do acordo de casamento com a Áustria evitaram se prender as características físicas da então arquiduquesa, embora Rodrigo Navarro de Andrade a tenha descrito como de “agradável presença, cor de carne admirável, muita frescura, todas as indicações de próspera saúde”[7], Alberto Rangel, um grande biógrafo da vida amorosa de Dom Pedro deu uma descrição repugnante da futura imperatriz, mostrando-a como corcunda, com o que não concordam outros testemunhos. Carlos H. Oberacker Jr. por outro lado, descreveu Leopoldina como bela, mas também lhe ressaltou mais as virtudes e qualidades morais. Penso que talvez a imagem de Dona Leopoldina como horrenda tenha origens no seu aspecto deteriorado pelo clima brasileiro, pelos sofrimentos e pela miséria – além de uma simplicidade peculiar no vestir –, que parece ainda pior em comparação com a figura de Domitila, que com certeza atingiu seu auge de esplendor nos últimos anos de vida da imperatriz.
A passagem mencionada acima de Mrs. Graham mostra que Dona Leopoldina tentara fazer o marido progredir nos estudos, mas nesse quesito não logrou sucesso, pois não estava na natureza de Dom Pedro fixar a atenção por tanto tempo em assuntos tão pouco práticos e entediantes. Mesmo exercendo toda a sua paciência, Dona Leopoldina não conseguiu influenciar o marido nesse ponto, pelo menos nesses primeiros tempos de união; mais tarde, na complexa conjuntura da Revolução do Porto e do processo de Independência, Dona Leopoldina já terá conquistado a confiança do marido, no entanto, sempre foi este quem ditou as regras do relacionamento, muitas vezes de forma violenta e bruta, com o que dificilmente se acostumou a refinada princesa austríaca.  Enganam-se porém os que pensarem que essas maneiras bruscas poderiam diminuir o sentimento da princesa pelo esposo, o amor desculpava todos os defeitos. O trecho seguinte, retirado de uma carta confidencial da princesa à irmã predileta, mostra bem essa ação enganadora do amor sobre o juízo da esposa apaixonada, “Estou feliz graças a Deus, pois Deus me dá muita serenidade e paciência e encontrei no meu esposo verdadeiro amigo e nobre homem. Quero descrevê-lo a você com poucas palavras e com toda franqueza, convencida de que esta carta não chegará a outras mãos senão às suas, minha querida. Com toda franqueza, diz ele tudo o que pensa, e isso com alguma brutalidade; habituado a executar sempre a sua vontade, todos devem acomodar-se a ele; até eu sou obrigada a admitir alguns azedumes. Vendo entretanto, que me chocou, chora comigo, apesar de toda a sua violência e de seu modo próprio de pensar estou convencida de que me ama ternamente; apesar do retraimento resultante de numerosos acontecimentos infelizes na sua família [...] todo o seu pensamento me é conhecido”[8].
Muitos dos posteriores sofrimentos de Dona Leopoldina foram agravados por sua crescente solidão na corte do Rio de Janeiro. Ainda nos tempos de Dom João, a nobreza cortesã dividira-se em três grandes grupos, os do Rei, os da Rainha e os do Príncipe Herdeiro, cada um dos quais procurava diminuir o prestígio dos outros e conseguir mais vantagens junto aos soberanos. De Dona Carlota Joaquina, Leopoldina logo se afastou, não conseguindo conviver com o comportamento desregrado e intrigante da sogra. Com o sogro Dom João, a princesa sempre teve relações bastante cordiais, seguindo à risca os conselhos do pai Francisco I, dificultadas apenas pelas tensões existentes entre o rei e seu filho. Não se pode dizer jamais que Dom Pedro não respeitasse os pais, inclusive a mãe, mas o rei era influenciado pelos nobres cortesãos ao seu redor, que manipulavam Dom João para manter o príncipe afastado dos negócios do reino. Afastada do rei, Dona Leopoldina não pôde sequer desfrutar a companhia de seus conterrâneos que com ela vieram da Europa, pois os cortesãos portugueses, e o próprio Dom Pedro, desconfiavam da presença de estrangeiros nas dependências do paço; rapidamente a princesa foi rodeada por damas e cortesãos portugueses.
A obediência de Dona Leopoldina às exigências despropositadas de Dom Pedro era indicada pelos preceitos rígidos de sua educação e pelos conselhos de seu pai, a educação das princesas da Casa D’Áustria impunha a obediência à vontade do pai e do marido (“Conservarei no meu coração as boas instruções que recebi dos meus pais e das pessoas que se encarregaram da minha educação” retirado das “Resoluções” de Leopoldina, e em carta a seu pai, “Cumpri perfeitamente o que o senhor, mui caro pai, tinha a bondade de me dizer, e lhe agradeço ainda muitas vezes por todos estes bons conselhos, pois é somente agora que percebo, como ando bem, seguindo-os à risca”[9]). Não cabia a Dona Leopoldina outra atitude que não a submissão, pelos motivos já mencionados, por seu amor a Dom Pedro e pela situação social da mulher nos países ibéricos, e no Brasil, no início do século XIX. O ideal dominante de mulher era o de um conjunto de qualidades passivas, Oberacker muito propriamente cita Gilberto Freyre, “Da mulher não se queria ouvir a voz, a não ser pedindo vestido novo, cantando modinha, rezando pelos homens; nunca aconselhando ou sugerindo o que quer que fosse de menos doméstico, de menos gracioso, de menos gentil; nunca metendo-se em assuntos de homem”[10]. Dona Leopoldina não quis romper essa tradição, pois pensava sabiamente que somente assim chegaria a influenciar Dom Pedro, à medida que ele visse nela a figura da mulher ideal. O preço disso para Dona Leopoldina foi o crescente isolamento do restante da corte, dependendo cada vez mais dele para tudo.


[1] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 3, Tomo II, p 694 (História dos Fundadores do Império).
[2] OBERACKER JR. , Carlos H. A Imperatriz Leopoldina, Sua Vida E Sua Época. Ensaio de uma Biografia. Conselho Federal de Cultura, 1973, p 56.
[3] Idem, p 98.
[4] Idem, p 100
[5] Idem, p 58.
[6] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 2, Tomo I, p 112 (História dos Fundadores do Império).
[7] Idem, p107.
[8] OBERACKER JR. , Carlos H. A Imperatriz Leopoldina, Sua Vida E Sua Época. Ensaio de uma Biografia. Conselho Federal de Cultura, 1973, p 127.

[9] Idem, p 136.
[10] Apud, p 137.


D. Leopoldina na Ilha da Madeira.
Óleo sobre tela, 1817. Museu Histórico Nacional - RJ



D. Leopoldina demonstra sua privilegiada formação intelectual em reunião com políticos do 1º Reinado



D. Leopoldina e suas filhas e filhos (todavia, apenas uma pequena parte dos descendentes do imperador seriam filhos da imperatriz)


Ficheiro:Debret-desembarque.jpg
 Desembarque da princesa Leopoldina. Aquarela de Debret, 1817. Museu do Açude, Rio de Janeiro, Brasil



O juramento constitucional da Imperatriz D. Leopoldina

A marquesa & a imperatriz - Parte 1: historiografia e o Rio de Janeiro no início do século XIX

      A relação entre a Imperatriz Dona Leopoldina e a Marquesa de Santos, Dona Domitila de Castro Canto e Melo, exerce um profundo fascínio nas gerações atuais, pois dá um tom dramático e excitante às vidas de personagens muito importantes de um período crucial da história brasileira, o Primeiro Império, em que a construção da Nação Brasileira estava em ponto tão inicial que é discutível a mera existência de um sentimento de brasilidade em toda extensão territorial que compunha o Novo Império Americano.
      Ambas as senhoras desempenharam importantes papéis no jogo político da década de 20 do século XIX no Brasil; a Imperatriz tendo participação ativa no Processo de Independência, estimulando mesmo seu marido Dom Pedro a não retornar a Portugal, alertando-o de que se o fizesse ele tornar-se-ia um prisioneiro das Cortes de Lisboa como acontecera a seu pai, o Rei Dom João VI, assumindo a Regência do país e ela mesma assinando o Decreto que separou Brasil de Portugal, pois o Príncipe estava em viagem à São Paulo para articular o apoio da elite daquela poderosa província ao movimento de independência, pela pacificação das disputas intestinas das elites locais, o que resultou na confirmação da proeminência dos Irmãos Andrada, notadamente de José Bonifácio, depois considerado o Patriarca da Independência. Como a história é contada pelos vencedores, e não cabe a este trabalho discutir os erros e injustiças feitos pela historiografia ao gênero feminino, foi Dom Pedro quem angariou a fama de separador do Brasil de Portugal ao desferir “Às margens plácidas do Ipiranga, um brado retumbante”, não sua esposa, no real comando do país à ocasião.
      Infelizmente para Dona Leopoldina, a viagem de Dom Pedro à São Paulo trouxe uma reviravolta em sua vida ainda mais inesperada que a separação da Metrópole lusitana; nela o príncipe conheceu a senhora Domitila de Castro Canto e Melo, que viria a ser a Marquesa de Santos nos anos seguintes. Como a amante favorita do Imperador, Domitila também desempenhará um relevante papel na política do Primeiro Império, usando de sua influência sobre o Imperador para defender os interesses de grupos políticos da província de São Paulo que se posicionavam contra a facção dos Irmãos Andrada, sendo que José Bonifácio, homem de imensa erudição, tendo estudado diversos campos do conhecimento por muitos anos em vários pontos da Europa, formado pela Universidade de Coimbra, e de moralidade impecável, não poderia nunca admitir a influência da amante casada do Imperador, o que naturalmente o colocaria em campo oposto ao da Marquesa. O embate entre esses grupos, e especificamente o embate entre as duas mais poderosas figuras da política do momento, à parte, é claro, do próprio Imperador, com Bonifácio inclusive deixando o governo e passando à oposição, continuaria em tom sempre mais grave até a crise de 1823, que culminou com a dissolução da Assembléia Constituinte por Dom Pedro, contra o que se posicionou Bonifácio. Ele não teve outro recurso a não ser exilar-se e afastar-se do jogo político, dando a vitória à Marquesa de Santos – título, aliás, concedido pelo Imperador apenas para provocar os Irmãos Andrada, naturais de Santos.
       Não obstante essas importantes facetas políticas das duas personagens, o que se pretende rapidamente estudar nesse trabalho é como se deu a relação entre as duas no ambiente da Corte do Rio de Janeiro, uma vez que Dom Pedro elevara Domitila à condição de Primeira Camareira da Imperatriz, tornando cotidiano o contato entre as duas, e tendo-se em vista a ausência de limites entre o público e o privado na sociedade ainda estamental brasileira, com fortes aspectos de Antigo Regime, e, em agravante a essa circunstância, considerando-se os rituais e aparatos próprios de uma Monarquia Absolutista, que, como mostrou Norbet Elias para a Corte Francesa de Luís XIV, enredam as figuras dos Soberanos e os prendem em uma trama de tensões recíprocas para com seus subordinados, a Nobreza e mesmo a Alta Burguesia, tornando falsa a imagem do Rei, ou Rainha, que tudo pode fazer sem a ninguém consultar [1]. De fato, a Imperatriz Leopoldina não tinha liberdade de ação no que tocava Domitila, mesmo se fosse de sua índole dar uma resposta violenta à influência de sua camareira-mor sobre o Imperador, o que se verá não ser o caso, ela não o poderia fazer devido às tensões que permeiam as relações, extremamente ritualizadas, de um ambiente de Corte. Destarte, o quadro social e as subjetividades de cada um dos vértices desse triângulo – Dona Leopoldina, Dom Pedro e Dona Domitila – condenou-os a uma coexistência, se pacífica ou não, e em que termos são outras questões que se colocarão mais tarde, que só foi interrompida pela morte da Imperatriz Dona Leopoldina em 1826.Portanto, para a compreensão da dinâmica entre essas mulheres, é necessário conhecer-se minimamente a sociedade cortesã em que estavam inseridas, isto é, a Corte do Rio de Janeiro entre 1822 e 1826, de quando Dom Pedro e Domitila se conheceram até a morte da Imperatriz. E para conhecer esse cenário, é preciso retroceder até 1808, à vinda da Família Real Portuguesa, evento que determinou a transformação da pobre vila de São Sebastião do Rio de Janeiro na capital de um dos maiores impérios, em território, do mundo, inicialmente, isto é a partir de 1815, o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e depois o Império do Brasil, após 1822, carregando-a do fausto, da festa e do brilho dignos de uma metrópole européia e necessários para manter a Representação da Monarquia, envolta sempre em ouro, diamantes, sedas e veludos quando à população se mostrava, para os ofuscar e fazer-se admirar profundamente, procurando dessa forma conservar-se no poder, reforçando o simbolismo da figura do Rei, como encarnação da Nação.
     A notícia da vinda da Corte chegara ao Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1808, e imediatamente o conde dos Arcos, Vice-Rei do Brasil, iniciou os preparativos para a acomodação da Corte. Em primeiro lugar, cedeu sua moradia, onde também funcionava o Tribunal de Relação, à família real, em seguida tratou da reforma integral do palácio, anexando a ele, também com intensa reforma, a Casa da Câmara e da Cadeia, foi construído um passadiço ligando o paço dos vice-reis, quem em breve tornar-se-ia o paço real, à Casa da Câmara e da Cadeia. Para a instalação da rainha Dona Maria I – afastada do governo pelo seu avançado estágio de demência – foi requisitado o Convento dos Carmelitas, separado dos fundos do paço pela Rua Direita. Foi erguido um outro passadiço ligando os dois prédios, para, não só evitar a necessidade da família real de sair à rua no trânsito de um a outro edifício, mas também para aumentar o espaço habitável. Decretou-se a chamada Lei das Aposentadorias, que ordenava aos proprietários dos melhores prédios nas proximidades do palácio a esvaziarem-nos em prol da melhor acomodação dos nobres portugueses. O conde dos Arcos também se preocupou com o abastecimento da cidade, por isso solicitou aos governadores de Minas Gerais e São Paulo que enviassem grandes quantidades de víveres. Deve-se ressaltar que, ao contrário do que comumente se pensa, a economia de Minas Gerais não retrocedeu com a decadência da extração aurífera, houve somente um deslocamento de mão-de-obra para a agricultura, que se sempre fora uma atividade importante da província, mais se tornou com a enorme demanda por alimentos da Corte lusitana instalada no Rio de Janeiro.
      O vice-rei e as demais autoridades coloniais preocupavam-se, no entanto, mais ainda com o modo de receber a Corte, pois, como já se disse, a festa e o fausto eram imprescindíveis aos rituais da Monarquia. Assim, o Senado da Câmara decretou uma variada programação de festejos religiosos e civis, incluindo procissões, te-déum, iluminação da cidade, alegorias e janelas enfeitadas, touradas, cavalhadas, foguetórios, récitas, conjuntos musicais e danças, além, é claro, da cerimônia do beija-mão, que desta vez envolvia-se de uma aura toda especial, uma vez que seria para o príncipe regente em pessoa. A festa de recepção da Corte seria o primeiro contato entre esta e o povo do Rio de Janeiro, representando de certo modo o povo de toda América Portuguesa, eis porque era crucial sua óbvia magnificência – dentro dos padrões a que estavam acostumadas as pessoas na colônia -; nas palavras da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, a festa “ao mesmo tempo que é de e para todos, estigmatiza e marca posições”[2].
      Quando chegou ao Rio de Janeiro, no dia sete de março de 1808, Dom João logo iniciou os trabalhos para a transformação da cidade em que aportara em algo próximo a uma metrópole européia. O primeiro passo foi erguer a estrutura do Estado, que se deu principalmente por um transplante dos órgãos existentes em Portugal para o Brasil, porém sempre com uma boa dose de criatividade, conforme as condições objetivas do Rio de Janeiro exigissem. Em primeiro lugar, o príncipe regente criou os três mais importantes Ministérios do governo, o dos Negócios Estrangeiros e do Brasil, liderado por Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, a figura mais importante do governo até sua morte, o dos Negócios do Reino, chefiado por Dom Fernando José de Portugal, que viria a ser o Marquês de Aguiar, e o dos Negócios da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, em cuja frente estava Dom João Rodrigues de Sá e Meneses. Para dar sustento a todos os portugueses que acompanharam a família real e não tinham sustento próprio, o governo tratou de absorvê-los, provocando um grande inchaço da máquina administrativa, que tendia a seguir a mesma rotina burocrática de antes da viagem. Foi transferida também a Casa de Suplicação, última instância de justiça em Portugal, que absorvera o Tribunal de Relação local. Para administrar as finanças do Império, transplantou-se o Erário, que administrava, juntamente com o Conselho de Estado, que tinha outras atribuições além dessas, mas foi pouco consultado enquanto Dom João esteve no Brasil, a Junta da Fazenda, a Alfândega, a Intendência da Marinha e os Armazéns Reais. Para incrementar o comércio e demais atividades econômicas no Brasil, o príncipe regente criou o Banco do Brasil ainda em 1808. Neste ano, ao dia 13 de maio, aliás, aniversário de Dom João, foi criada a Imprensa Régia, órgão que funcionou como uma espécie de divulgador dos feitos do governo de Dom João, pois era responsável pela publicação dos documentos oficiais e de obras em geral, mas essas tinham que ser transmissoras de uma idéia abonadora da Monarquia, do que se certificava o Desembargo do Paço, tribunal que foi dotado de atribuições de órgão de censura no Brasil, e cujo maior exemplo foi o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, grande ventilador de elogios à Família Real e ao governo em geral. Em ordem de angariar o apoio das elites da terra, composta por proprietários de terra e grandes comerciantes, especialmente os traficantes de escravos, Dom João criou a Câmara do Registro das Mercês e a Corporação de Armas; meios de distribuição de títulos e honrarias à elite local, ansiosa por adquirir os mesmos símbolos de prestígio e status da nobreza lusitana, em troca de apoio político e econômico. Dom João criou também o Arquivo Militar, a Fábrica de Pólvora, a Academia da Marinha e a Academia Militar.
Essa primeira fase de instalação do aparelho de Estado, grosso modo, durou até 1811, mas de forma alguma foi suficiente para transformar uma acanhada cidade colonial em uma cosmopolita sede imperial. Mesmo que a instalação em si da sede do Estado dinamizasse a vida social da cidade, com maior circulação de capital, mercadorias e pessoas, inclusive com embaixadas e missões diplomáticas estrangeiras, recordando-se que antes da vinda da Corte a entrada de estrangeiros na colônia era extremamente limitada, pois o conhecimento das características do Brasil era considerado segredo de Estado, de fato, o famoso naturalista e explorador prussiano A. Von Humbolt teve ordem de prisão decretada caso colocasse os pés em solo português na América, faltava ao Rio os símbolos de distinção, grandeza e civilidade próprios da Monarquia, que pretendia passar uma imagem informada pela concepção iluminista de governos, ou seja, era necessário cobrir a capital com um verniz artístico-intelectual.
Assim, foram criadas diversas instituições artísticas e científicas para dignificação do Rio de Janeiro, a saber, o Jardim Botânico, o Museu Real em 1808, a Real Biblioteca em 1814, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios em 1816, quando da vinda da Missão Francesa, e o Real teatro de São João, cujos espetáculos teatrais e musicais eram uma das principais diversões da nobreza, contando inclusive com o comparecimento da família real em noites de gala. As festas, que tinham sempre o fundo político de manutenção do poder político, eram variadas, havia procissões, foguetórios, leilões, batuques, fandangos, cavalhadas, a queima do Judas no sábado santo, a festa do imperador do Espírito Santo, e, naturalmente, os aniversários da realeza e os dias santos. As aparições públicas de Dom João eram planejadas de forma a associar sua imagem à representação do Império Brasileiro. A partir da pacificação européia com a queda de Napoleão em 1815, a influência francesa se fez cada vez maior e importante na vida social carioca, a elite procurava imitar os franceses no portar-se, no vestir-se e no que ler. A retomada do comércio com a França permitiu uma avalanche de produtos franceses de luxo no mercado brasileiro. Foi nesse contexto que veio ao país a Missão Francesa, composta por profissionais e artistas desempregados do Estado após a queda de Napoleão. O objetivo dessa Missão era dotar a Corte de uma nova história, de uma nova memória, através da produção de uma vasta e poderosa iconografia, criando em conseqüência uma representação oficial do Império e do Rei, procurando construir cenários grandiosos para a Corte imigrada, trabalhando principalmente em suas festas menos comuns e mais importantes, como a morte e enterramento da rainha Dona Maria I, a aclamação do Dom João VI como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves – a elevação dera-se em 18515 – e as festas de Bodas de Dona Leopoldina e Dom Pedro.
É, portanto, neste ambiente de efevercência política e cultural, que se deu o embate entre Dona Domitila, viscondessa e, depois, marquesa de Santos, e a Imperatriz Dona Leopoldina. Um embate com certeza político, mas também, e principalmente, pelo amor de Dom Pedro I.

            Seguem abaixo imagens das principais personagens desse drama e da cidade do Rio de Janeiro, agora capital do mais novo Império do mundo!
A Marquesa de Santos

A Imperatriz D. Leopoldina

A chegada de D. Leopoldina ao Rio de Janeiro (para desgosto do jovem príncipe!)

O jovem Imperador constitucional (e logo depois, déspota absolutista) D. Pedro I

Aclamação de D. Pedro Imperador do Brasil no Rio de Janeiro. Versão colorizada de uma litografia em preto e branco de Debret

Festa no Rio de Janeiro, em ilustração da Fundação da Biblioteca Nacional: novos ares com a corte joanina
Festa em casa de elite no Rio de Janeiro no período joanino (1808-1821)

Divulgação
Detalhe de obra de Jean-Baptiste Debret que integra mostra no Rio de Janeiro

Paisagem da cidade do Rio de Janeiro com escravos (provavelmente de ganho) trabalhando nas ruas. Litografia de Debret

As pinturas de Debret mostravam também aspectos sociais da cidade
[1] ELIAS, Norbert. A Sociedade de Corte. Investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001.


[2] .SCHWARCZ, Lilia Moritz. A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. Do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p 237.