A relação entre a Imperatriz Dona Leopoldina e a Marquesa de Santos, Dona Domitila de Castro Canto e Melo, exerce um profundo fascínio nas gerações atuais, pois dá um tom dramático e excitante às vidas de personagens muito importantes de um período crucial da história brasileira, o Primeiro Império, em que a construção da Nação Brasileira estava em ponto tão inicial que é discutível a mera existência de um sentimento de brasilidade em toda extensão territorial que compunha o Novo Império Americano.
Ambas as senhoras desempenharam importantes papéis no jogo político da década de 20 do século XIX no Brasil; a Imperatriz tendo participação ativa no Processo de Independência, estimulando mesmo seu marido Dom Pedro a não retornar a Portugal, alertando-o de que se o fizesse ele tornar-se-ia um prisioneiro das Cortes de Lisboa como acontecera a seu pai, o Rei Dom João VI, assumindo a Regência do país e ela mesma assinando o Decreto que separou Brasil de Portugal, pois o Príncipe estava em viagem à São Paulo para articular o apoio da elite daquela poderosa província ao movimento de independência, pela pacificação das disputas intestinas das elites locais, o que resultou na confirmação da proeminência dos Irmãos Andrada, notadamente de José Bonifácio, depois considerado o Patriarca da Independência. Como a história é contada pelos vencedores, e não cabe a este trabalho discutir os erros e injustiças feitos pela historiografia ao gênero feminino, foi Dom Pedro quem angariou a fama de separador do Brasil de Portugal ao desferir “Às margens plácidas do Ipiranga, um brado retumbante”, não sua esposa, no real comando do país à ocasião.
Infelizmente para Dona Leopoldina, a viagem de Dom Pedro à São Paulo trouxe uma reviravolta em sua vida ainda mais inesperada que a separação da Metrópole lusitana; nela o príncipe conheceu a senhora Domitila de Castro Canto e Melo, que viria a ser a Marquesa de Santos nos anos seguintes. Como a amante favorita do Imperador, Domitila também desempenhará um relevante papel na política do Primeiro Império, usando de sua influência sobre o Imperador para defender os interesses de grupos políticos da província de São Paulo que se posicionavam contra a facção dos Irmãos Andrada, sendo que José Bonifácio, homem de imensa erudição, tendo estudado diversos campos do conhecimento por muitos anos em vários pontos da Europa, formado pela Universidade de Coimbra, e de moralidade impecável, não poderia nunca admitir a influência da amante casada do Imperador, o que naturalmente o colocaria em campo oposto ao da Marquesa. O embate entre esses grupos, e especificamente o embate entre as duas mais poderosas figuras da política do momento, à parte, é claro, do próprio Imperador, com Bonifácio inclusive deixando o governo e passando à oposição, continuaria em tom sempre mais grave até a crise de 1823, que culminou com a dissolução da Assembléia Constituinte por Dom Pedro, contra o que se posicionou Bonifácio. Ele não teve outro recurso a não ser exilar-se e afastar-se do jogo político, dando a vitória à Marquesa de Santos – título, aliás, concedido pelo Imperador apenas para provocar os Irmãos Andrada, naturais de Santos.
Não obstante essas importantes facetas políticas das duas personagens, o que se pretende rapidamente estudar nesse trabalho é como se deu a relação entre as duas no ambiente da Corte do Rio de Janeiro, uma vez que Dom Pedro elevara Domitila à condição de Primeira Camareira da Imperatriz, tornando cotidiano o contato entre as duas, e tendo-se em vista a ausência de limites entre o público e o privado na sociedade ainda estamental brasileira, com fortes aspectos de Antigo Regime, e, em agravante a essa circunstância, considerando-se os rituais e aparatos próprios de uma Monarquia Absolutista, que, como mostrou Norbet Elias para a Corte Francesa de Luís XIV, enredam as figuras dos Soberanos e os prendem em uma trama de tensões recíprocas para com seus subordinados, a Nobreza e mesmo a Alta Burguesia, tornando falsa a imagem do Rei, ou Rainha, que tudo pode fazer sem a ninguém consultar . De fato, a Imperatriz Leopoldina não tinha liberdade de ação no que tocava Domitila, mesmo se fosse de sua índole dar uma resposta violenta à influência de sua camareira-mor sobre o Imperador, o que se verá não ser o caso, ela não o poderia fazer devido às tensões que permeiam as relações, extremamente ritualizadas, de um ambiente de Corte. Destarte, o quadro social e as subjetividades de cada um dos vértices desse triângulo – Dona Leopoldina, Dom Pedro e Dona Domitila – condenou-os a uma coexistência, se pacífica ou não, e em que termos são outras questões que se colocarão mais tarde, que só foi interrompida pela morte da Imperatriz Dona Leopoldina em 1826.Portanto, para a compreensão da dinâmica entre essas mulheres, é necessário conhecer-se minimamente a sociedade cortesã em que estavam inseridas, isto é, a Corte do Rio de Janeiro entre 1822 e 1826, de quando Dom Pedro e Domitila se conheceram até a morte da Imperatriz. E para conhecer esse cenário, é preciso retroceder até 1808, à vinda da Família Real Portuguesa, evento que determinou a transformação da pobre vila de São Sebastião do Rio de Janeiro na capital de um dos maiores impérios, em território, do mundo, inicialmente, isto é a partir de 1815, o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e depois o Império do Brasil, após 1822, carregando-a do fausto, da festa e do brilho dignos de uma metrópole européia e necessários para manter a Representação da Monarquia, envolta sempre em ouro, diamantes, sedas e veludos quando à população se mostrava, para os ofuscar e fazer-se admirar profundamente, procurando dessa forma conservar-se no poder, reforçando o simbolismo da figura do Rei, como encarnação da Nação. A notícia da vinda da Corte chegara ao Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1808, e imediatamente o conde dos Arcos, Vice-Rei do Brasil, iniciou os preparativos para a acomodação da Corte. Em primeiro lugar, cedeu sua moradia, onde também funcionava o Tribunal de Relação, à família real, em seguida tratou da reforma integral do palácio, anexando a ele, também com intensa reforma, a Casa da Câmara e da Cadeia, foi construído um passadiço ligando o paço dos vice-reis, quem em breve tornar-se-ia o paço real, à Casa da Câmara e da Cadeia. Para a instalação da rainha Dona Maria I – afastada do governo pelo seu avançado estágio de demência – foi requisitado o Convento dos Carmelitas, separado dos fundos do paço pela Rua Direita. Foi erguido um outro passadiço ligando os dois prédios, para, não só evitar a necessidade da família real de sair à rua no trânsito de um a outro edifício, mas também para aumentar o espaço habitável. Decretou-se a chamada Lei das Aposentadorias, que ordenava aos proprietários dos melhores prédios nas proximidades do palácio a esvaziarem-nos em prol da melhor acomodação dos nobres portugueses. O conde dos Arcos também se preocupou com o abastecimento da cidade, por isso solicitou aos governadores de Minas Gerais e São Paulo que enviassem grandes quantidades de víveres. Deve-se ressaltar que, ao contrário do que comumente se pensa, a economia de Minas Gerais não retrocedeu com a decadência da extração aurífera, houve somente um deslocamento de mão-de-obra para a agricultura, que se sempre fora uma atividade importante da província, mais se tornou com a enorme demanda por alimentos da Corte lusitana instalada no Rio de Janeiro.
O vice-rei e as demais autoridades coloniais preocupavam-se, no entanto, mais ainda com o modo de receber a Corte, pois, como já se disse, a festa e o fausto eram imprescindíveis aos rituais da Monarquia. Assim, o Senado da Câmara decretou uma variada programação de festejos religiosos e civis, incluindo procissões, te-déum, iluminação da cidade, alegorias e janelas enfeitadas, touradas, cavalhadas, foguetórios, récitas, conjuntos musicais e danças, além, é claro, da cerimônia do beija-mão, que desta vez envolvia-se de uma aura toda especial, uma vez que seria para o príncipe regente em pessoa. A festa de recepção da Corte seria o primeiro contato entre esta e o povo do Rio de Janeiro, representando de certo modo o povo de toda América Portuguesa, eis porque era crucial sua óbvia magnificência – dentro dos padrões a que estavam acostumadas as pessoas na colônia -; nas palavras da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, a festa “ao mesmo tempo que é de e para todos, estigmatiza e marca posições”. Quando chegou ao Rio de Janeiro, no dia sete de março de 1808, Dom João logo iniciou os trabalhos para a transformação da cidade em que aportara em algo próximo a uma metrópole européia. O primeiro passo foi erguer a estrutura do Estado, que se deu principalmente por um transplante dos órgãos existentes em Portugal para o Brasil, porém sempre com uma boa dose de criatividade, conforme as condições objetivas do Rio de Janeiro exigissem. Em primeiro lugar, o príncipe regente criou os três mais importantes Ministérios do governo, o dos Negócios Estrangeiros e do Brasil, liderado por Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, a figura mais importante do governo até sua morte, o dos Negócios do Reino, chefiado por Dom Fernando José de Portugal, que viria a ser o Marquês de Aguiar, e o dos Negócios da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, em cuja frente estava Dom João Rodrigues de Sá e Meneses. Para dar sustento a todos os portugueses que acompanharam a família real e não tinham sustento próprio, o governo tratou de absorvê-los, provocando um grande inchaço da máquina administrativa, que tendia a seguir a mesma rotina burocrática de antes da viagem. Foi transferida também a Casa de Suplicação, última instância de justiça em Portugal, que absorvera o Tribunal de Relação local. Para administrar as finanças do Império, transplantou-se o Erário, que administrava, juntamente com o Conselho de Estado, que tinha outras atribuições além dessas, mas foi pouco consultado enquanto Dom João esteve no Brasil, a Junta da Fazenda, a Alfândega, a Intendência da Marinha e os Armazéns Reais. Para incrementar o comércio e demais atividades econômicas no Brasil, o príncipe regente criou o Banco do Brasil ainda em 1808. Neste ano, ao dia 13 de maio, aliás, aniversário de Dom João, foi criada a Imprensa Régia, órgão que funcionou como uma espécie de divulgador dos feitos do governo de Dom João, pois era responsável pela publicação dos documentos oficiais e de obras em geral, mas essas tinham que ser transmissoras de uma idéia abonadora da Monarquia, do que se certificava o Desembargo do Paço, tribunal que foi dotado de atribuições de órgão de censura no Brasil, e cujo maior exemplo foi o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, grande ventilador de elogios à Família Real e ao governo em geral. Em ordem de angariar o apoio das elites da terra, composta por proprietários de terra e grandes comerciantes, especialmente os traficantes de escravos, Dom João criou a Câmara do Registro das Mercês e a Corporação de Armas; meios de distribuição de títulos e honrarias à elite local, ansiosa por adquirir os mesmos símbolos de prestígio e status da nobreza lusitana, em troca de apoio político e econômico. Dom João criou também o Arquivo Militar, a Fábrica de Pólvora, a Academia da Marinha e a Academia Militar.
Essa primeira fase de instalação do aparelho de Estado, grosso modo, durou até 1811, mas de forma alguma foi suficiente para transformar uma acanhada cidade colonial em uma cosmopolita sede imperial. Mesmo que a instalação em si da sede do Estado dinamizasse a vida social da cidade, com maior circulação de capital, mercadorias e pessoas, inclusive com embaixadas e missões diplomáticas estrangeiras, recordando-se que antes da vinda da Corte a entrada de estrangeiros na colônia era extremamente limitada, pois o conhecimento das características do Brasil era considerado segredo de Estado, de fato, o famoso naturalista e explorador prussiano A. Von Humbolt teve ordem de prisão decretada caso colocasse os pés em solo português na América, faltava ao Rio os símbolos de distinção, grandeza e civilidade próprios da Monarquia, que pretendia passar uma imagem informada pela concepção iluminista de governos, ou seja, era necessário cobrir a capital com um verniz artístico-intelectual.
Assim, foram criadas diversas instituições artísticas e científicas para dignificação do Rio de Janeiro, a saber, o Jardim Botânico, o Museu Real em 1808, a Real Biblioteca em 1814, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios em 1816, quando da vinda da Missão Francesa, e o Real teatro de São João, cujos espetáculos teatrais e musicais eram uma das principais diversões da nobreza, contando inclusive com o comparecimento da família real em noites de gala. As festas, que tinham sempre o fundo político de manutenção do poder político, eram variadas, havia procissões, foguetórios, leilões, batuques, fandangos, cavalhadas, a queima do Judas no sábado santo, a festa do imperador do Espírito Santo, e, naturalmente, os aniversários da realeza e os dias santos. As aparições públicas de Dom João eram planejadas de forma a associar sua imagem à representação do Império Brasileiro. A partir da pacificação européia com a queda de Napoleão em 1815, a influência francesa se fez cada vez maior e importante na vida social carioca, a elite procurava imitar os franceses no portar-se, no vestir-se e no que ler. A retomada do comércio com a França permitiu uma avalanche de produtos franceses de luxo no mercado brasileiro. Foi nesse contexto que veio ao país a Missão Francesa, composta por profissionais e artistas desempregados do Estado após a queda de Napoleão. O objetivo dessa Missão era dotar a Corte de uma nova história, de uma nova memória, através da produção de uma vasta e poderosa iconografia, criando em conseqüência uma representação oficial do Império e do Rei, procurando construir cenários grandiosos para a Corte imigrada, trabalhando principalmente em suas festas menos comuns e mais importantes, como a morte e enterramento da rainha Dona Maria I, a aclamação do Dom João VI como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves – a elevação dera-se em 18515 – e as festas de Bodas de Dona Leopoldina e Dom Pedro.
É, portanto, neste ambiente de efevercência política e cultural, que se deu o embate entre Dona Domitila, viscondessa e, depois, marquesa de Santos, e a Imperatriz Dona Leopoldina. Um embate com certeza político, mas também, e principalmente, pelo amor de Dom Pedro I.
Seguem abaixo imagens das principais personagens desse drama e da cidade do Rio de Janeiro, agora capital do mais novo Império do mundo!
A Marquesa de Santos
A Imperatriz D. Leopoldina
A chegada de D. Leopoldina ao Rio de Janeiro (para desgosto do jovem príncipe!)
O jovem Imperador constitucional (e logo depois, déspota absolutista) D. Pedro I
Aclamação de D. Pedro Imperador do Brasil no Rio de Janeiro. Versão colorizada de uma litografia em preto e branco de Debret
Festa em casa de elite no Rio de Janeiro no período joanino (1808-1821)
Detalhe de obra de Jean-Baptiste Debret que integra mostra no Rio de Janeiro
Paisagem da cidade do Rio de Janeiro com escravos (provavelmente de ganho) trabalhando nas ruas. Litografia de Debret
As pinturas de Debret mostravam também aspectos sociais da cidade