segunda-feira, 28 de março de 2011

Iluminismo: ousando conhecê-lo!

O Iluminismo muitas vezes é definido como uma escola de pensamento  que reuniu grandes filósofos durante o século XVIII em torno de um ideal racional do homem, do mundo e da História. Ainda que isso seja correto em alguma medida, tal afirmação pode mascarar a heterogeneidade que marcou o movimento, composto por diversas correntes filosóficas muitas vezes díspares entre si. Filósofos como Locke, Espinosa, Voltaire, Diderot, Montesquieu, Rousseau, dentre muitos outros, divergiam profundamente entre si - em alguns casos, as desavenças filosóficas se tornavam pessoais, como no que se refere a Rousseau, do qual muitos outros tinham raiva. Suas diferenças podiam ser conceituais, teóricas, a respeito da área de estudo ou de quão radicais era a crítica de cada um à sociedade em que viviam, a sociedade de Antigo Regime.
Porém, sob todas as diferenças, alguns princípios comuns podem ser identificados entre todos os filósofos, como a defesa da razão e da experiência como as ferramentas válidas para o conhecimento humano sobre o mundo e a crítica ao mundo em que viviam.
A valorização da razão e da experiência são características que unificam o de outro modo heterogêneo movimento iluminista na Europa e na América. Os vários filósofos iluministas divergiram em muitos pontos, mas puderam concordar no papel central que a razão e a experiência desempenham no processo de construção de conhecimento e na vida política dos homens.
A valorização da razão conduz a uma recusa mais ou menos forte de acordo com o autor – mas de alguma forma sempre presente -, da autoridade externa. Somente a razão poderia legitimar qualquer argumento, a tradição e a fé não teriam mais essa prerrogativa. Os filósofos do Iluminismo variaram na distância a que levavam esse princípio; alguns defenderam o anti-despotismo, criticando os dogmas da Igreja Católica e as estruturas políticas do Estado absolutista, outros, como o pensador português Francisco de Melo Franco em seu livro Medicina Teológica, não romperam com os ensinamentos da Igreja, deles se apropriaram para defender a razão.
A razão, ao observar os fenômenos naturais e com eles realizar experiências, procura detectar as regularidades que serem as marcas das leis naturais. Tais leis naturais, acreditavam os filósofos iluministas, seriam exemplares para a sociedade humana. A regularidade, uniformidade e racionalidade perfeitas da natureza seriam fontes de valores morais para os homens, um exemplo de como deveria ser a sociedade humana. A natureza foi glorificada de tal modo pelo iluminismo que, nos textos e nas crenças de muitos filósofos, confundiu-se com a idéia de deus, dando força ao movimento deísta no seio da ilustração.
Ao lado da razão, os filósofos iluministas consagraram a experiência como o único método verdadeiro para a construção do conhecimento. A consagração da experiência corresponde à adoção do método indutivo conforme fora utilizado e defendido por Newton e Locke no século XVII. Segundo vários historiadores, os universo cultural setecentista europeu foi marcado por forte anglomania, uma intensa valorização das idéias de Newton e Locke. A principal característica do pensamento desses autores adotada pelo ilustrados europeus foi o empirismo, que logo foi deslocado da física para a filosofia em geral e para o pensamento político. O método indutivo se faz presente em Newton conjugado a forte matematização do mundo. Segundo Jonathan I. Israel, o newtoniasianismo foi uma forma nova de articular ciência, filosofia e teologia[1][1]. 
O outro princípio comum aos diferentes filósofos do Iluminismo foi o tom de crítica constante ao mundo em que viviam. Essa crítica se baseava na supremacia da razão e da experiência humanas como formas de conhecer o mundo. Assim, se a razão pode conhecer toda a realidade, não há motivos legítimos para impedir que esta razão seja empregada no exame da vida social dos homens. Dessa forma, as sociedades do Antigo Regime na Europa foram analisadas em suas diferentes dimensões pelos muitos filósofos, cujos julgamentos foram mais ou menos condenatórios, de acordo com quão radical era eles.
Assim, Montesquieu - leia o post de biografias para saber mais sobre esse filósofo! -, por exemplo, analisou a forma de organização política de diferentes sociedades, entre as quais as européias, daí produziu críticas profundas às monarquias absolutistas, condenando-lhes o autoritarismo. Para evitar o autoritarismo do Estado, foi que ele propôs a teoria da tri-particição do poder em três instâncias, legislativa, judiciária e executiva.
Voltaire, por outro lado, atacou ferozmente a Igreja Católica na França, e, por causa disso, suas obras foram censuradas em vários países, como Portugal (o que não impedia as pessoas de lerem-nas, ao contrário!). Voltaire (considerado o grande divulgador dos ideias iluministas) atacou as religiões estabelecidas em geral e a Igreja Católica em particular, criticando nelas suas contradições, seu dogmatismo (seu apego a verdades absolutas que não podiam ser questionadas pela razão) e seu tom supersticioso. - confira o post das biografias para saber mais sobre Voltaire!
Os pensadores iluministas, portanto, compartilharam certos princípios - racionalismo, empirismo, anti-despotismo - e preocupavam-se com os mesmos problemas. Porém, cada filósofo deu uma resposta diferente a esses debates comuns. Assim, o Iluminismo foi um processo histórico de mudança no modo de pensar do homem.
Uma frase, do filósofo alemão Kant (confira também sua biografia no post correspondente!), que viveu no período final do Iluminismo, pode resumir todo o movimento; Sapere Aude! Cabe a vc usar sua razão para descobrir seu significado!



[1][1] ISRAEL, Jonathan I. Iluminismo Radical. A filosofia e a construção da modernidade. São Paulo: Madras, 2009. P. 563-576.  Para este autor, Newton e Locke influenciaram apenas uma corrente do iluminismo, aquela mais moderada e que não correspondeu à espinha dorsal do movimento, que, em sua radicalidade, devia mais à Espinosa e aos espinosistas.

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