O isolamento político, social e afetivo da imperatriz D. Leopoldina não só continuou após a Independência, em final de 1822, como se agravou de forma acelerada a partir de 1824, não coincidentemente o início da escalada triunfal de Dona Domitila na cena social e política do Rio de Janeiro. A primeira residência de Domitila no Rio foi uma casa modesta no bairro de Mata-porcos, bem escondida dos olhos da corte, provavelmente em inícios de 1823. O seu relacionamento íntimo com Dom Pedro começou em 30 de agosto de 1822, durante a viagem que o então príncipe fizera a São Paulo para pacificar a província e articular o apoio ao movimento de independência. O imperador tentou esconder Domitila do conhecimento da imperatriz e da corte durante os primeiros meses da relação, mas esse era um efeito impossível em uma cidade como o Rio de Janeiro, especialmente tratando-se da família imperial. Conta-se que a esposa e a amante foram rapidamente apresentadas, provavelmente por um irmão de Domitila, então ajudante de Dom Pedro. Provavelmente já tinha sido sussurrada aos ouvidos da imperatriz a natureza da relação da jovem desquitada e do imperador. Mas a imperatriz consideraria rebaixar-se tomar uma atitude firme, o que poderia provocar também a ira do imperador e jogá-lo mais ainda nos braços da amante. E como nada ainda indicava que esse relacionamento diferenciar-se-ia dos muitos outros do imperador, não pareceu necessário à imperatriz fazer qualquer oposição à Dona Domitila.
Antes de detalhar-se a ascensão de Domitila nos anos seguintes, é mister caracterizar a natureza da sua relação com o imperador, o que é um assunto enormemente polêmico entre os historiadores do período e os biógrafos da imperatriz, do imperador ou de Domitila, a marquesa de Santos. Todos partem do ponto de que ligação maior e inicial entre os amantes era o sexo, baseados na vida devassa do imperador antes mesmo de conhecer Domitila e nas cartas dele à amante, repletas de referências a situações íntimas do casal. Porém, creio ser um preconceito ditado por conservadorismo e puritanismo associar isso a falhas de caráter de Domitila; quem sabe o próprio Gilberto Freyre já não tenha dado uma pista do porque a marquesa foi tratada como a vilã e Dona Leopoldina como a vítima injustiçada; Domitila ousou não se conformar com o papel que a sociedade lhe ditara, ousou unir-se ao homem que desejou, seja por sexo, amor ou ambição, ousou jogar o masculino jogo da política nacional e, usando das armas de que dispunha, sua influência sobre o imperador, chegou a governar, de certa maneira, o jovem Império do Brasil. Por ser uma mulher à frente de seu tempo, Domitila foi cruelmente julgada não só por seus contemporâneos, mas também pela historiografia especializada. Isso seguramente levanta questionamentos a respeito da alegada neutralidade de um método de pesquisa histórica, se é realmente possível um historiador livrar-se das idiossincrasias próprias de seu tempo no seu difícil trabalho de construção de uma narrativa do passado. Essa é mais uma face do sempre presente risco de cometer-se anacronismos. Não falo que o historiador deva suprir o desprezo com que a sociedade tratou mulheres como Domitila, o que seria também uma simplificação indevida do passado histórico, mas ele igualmente não deve cometer juízos de valores, antes tentar compreender traços da psicologia das personagens, que não precisam estar de acordo com padrões sociais idealizados.
Feitas essas considerações, retornemos à relação de Dom Pedro e Dona Domitila. Elas provavelmente eram mais que puramente sexuais, nem tão pouco eram romancescas, de amores ideais, antes bastante comuns e até plebéias, bem em harmonia com a natureza simples de Dom Pedro. Ainda considerando a natureza de Dom Pedro e suas cartas à Domitila, é seguro dizer que havia muito sexo, e muito prazeroso, mas com certeza entremeado ao cotidiano. Não há nada de estranho em pensar uma relação extraconjugal motivada tanto por sexo quanto por amor. Em muitas de suas cartas a Domitila, Dom Pedro se subscreve como amigo e amante, tratando-a de meu amor, amiga, filha. Na carta de quatro de agosto de 1825 (que segue abaixo em anexo), o imperador deixa bem claro seus sentimentos de amor por Domitila. Infelizmente não se conservaram as cartas de Domitila a Dom Pedro, razão porque é impossível ter-se certeza dos seus sentimentos pelo imperador. O que se pode saber é que não cabe julgá-la apenas como uma mulher pérfida, manipuladora e ambiciosa sim, mas isso não significa que ela amasse o imperador.
A ascensão social de Domitila começou com a sua elevação, e a da irmã Ana Cândida, a damas do paço em 1824. Essa atitude é contraditória do modo inicial com que Dom Pedro tratara a amante, procurando escondê-la dos olhos da imperatriz, e é evidente que no estreito ambiente do paço seria impossível manter em segredo a relação dos amantes, e o convívio diário tornar-se-ia um suplício para a imperatriz. Portanto, é necessário perguntar-se o que mudou na disposição do imperador. A resposta mais elementar é que crescera a influência da amante sobre ele, e ela passou a demandar sua inclusão nas altas rodas da corte, mas é interessante relacionar essa alteração com o nascimento da primeira filha dos dois, Dona Isabel Maria, nascida no Rio de Janeiro a 23 de maio de 1824, por maiores que fossem todas as falhas de caráter de Dom Pedro, ninguém pode cometer a injustiça de chamá-lo de mau pai, pelos filhos ele costumeiramente fazia todos os sacrifícios, não moveria meio mundo em uma guerra civil para destronar o irmão e retomar o trono de Portugal para a filha mais velha, Dona Maria da Glória? Tendo ele mesmo uma mentalidade profundamente patriarcal, o imperador devia saber a vida que sua filha levaria, indelevelmente marcada como “bastarda”, e não há dúvida que ele não desejaria que uma filha do imperador do Brasil e descendente dos reis de Portugal fosse menosprezada socialmente. Pode ter sido por amor à filha, e também por pressão de Domitila, que Dom Pedro foi progressivamente perdendo todos os escrúpulos e deixou de esconder sua amante, tornando a relação pública.
De dama do paço, Domitila foi elevada por Dom Pedro a primeira camarista da imperatriz Leopoldina. O sofrimento dessa só cresceria daí em diante, pois tinha que conviver com a humilhação pública e cotidiana do poder da amante, cada vez mais presente inclusive nas solenidades do governo. No dia 12 de outubro de 1825, Domitila é agraciada pelo imperador com o título de viscondessa dos Santos, uma clara alfinetada em José Bonifácio, um dos muitos a criticar a viscondessa, levantando dúvidas a respeito de sua influência no governo através do imperador. Com certeza a imperatriz tinha ciência das relações de sua dama com seu marido a essa altura, mas seu coração de esposa apaixonada, da mesma forma que desculpara as falhas do marido no início do casamento, se recusava a realmente acreditar que o tão amado Pedro poderia fazê-la sofrer tanto. Foi durante a viagem à Bahia feita pelo imperador e sua corte em fevereiro e março de 1826 que destruiu todas as ilusões de Dona Leopoldina. Se no paço era difícil evitar Domitila, presas ambas e o imperador em um navio por semanas, é certo que Dona Leopoldina deve ter visto com os próprios olhos o marido e amante juntos. Para uma mulher apaixonada, inteiramente devotada ao marido e aos filhos, tal visão deve ter sido como uma facada no peito.
O regresso da viagem à Bahia trouxe as três personagens para um cenário um tanto diferente, não havia mais nenhuma necessidade de sigilo entre a viscondessa e o imperador, pois se a esposa já sabia e recusava-se a tomar medidas extremas, não havia mal em tornar de uma vez por todas público o amor entre eles, assim pensou Dom Pedro, cada vez mais embriagado de paixão e poder. Octavio Tarquínio de Sousa relata a influência de Domitila nesse período, “o certo é que o prestígio de D. Domitila crescia sempre, e que o imperador, dominado por um alucinante erotismo, prescindia do recato elementar e punha de parte, nas manifestações públicas à amante preferida, qualquer cuidado que significasse acatamento à suscetibilidade moral de seus súditos ou aos melindres de sua mulher, a imperatriz D. Leopoldina”[1].

Detalhe de pintura da Marquesa de Santos
[1] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 3, Tomo II, p 676 (História dos Fundadores do Império).
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