segunda-feira, 18 de abril de 2011

A marquesa & a imperatriz - Parte 2: o noivado e o casamento dos príncipes e os primeiros tempos no Paço Real

Ao analisar-se as relações pessoais dos membros da família imperial, é preciso levar em consideração a posição única dessa família na sociedade brasileira, cuja figura paterna é o chefe dos Poderes Executivo e Moderador e o símbolo da Nação – o que lhe dá uma influência no imaginário popular bastante poderosa. Por carregar um simbolismo tão forte em si, da família imperial eram esperados comportamentos e ações reflexas da idealização dela construída, nas quais estavam embutidos sentimentos profundamente enraizados no imaginário da jovem Nação, tais como Honra, Decência, Coragem, Honestidade e outros, além disso, os membros da família real não podiam deixar de representar idealmente os papéis de Homem-Marido-Pai, no caso de Dom Pedro, e Mulher-Esposa-Mãe, no de Dona Leopoldina. Prova disso são tanto a acentuada queda de popularidade do imperador quando o seu relacionamento com Dona Domitila tornou-se demasiado público, para o maior sofrimento de    Dona Leopoldina, quanto à dor demonstrada pelo povo do Rio de Janeiro na ocasião da morte da imperatriz, “Quem tomará agora o partido dos negros? Nossa mãe se foi!” [1], gritaram pelas ruas cariocas os pobres a quem Dona Leopoldina sempre socorrera, a custo de privações próprias como se verá. Eis porque todos os passos da família imperial eram controlados pela sociedade, seja através dos jornais, da Assembléia Legislativa, órgão que estipulava a renda de cada membro da família, ou da fofoca e da maledicência que corria solta na Corte.
Dessa forma, pode-se entender porque um conjunto de relações de natureza tão íntima – as de uma esposa e da amante de seu marido, e as delas com este – atingiu tamanha publicidade, tendo sido matéria constante inclusive de jornais europeus, e teve desdobramentos políticos os mais variados e importantes. Para o entendimento da forma como se relacionaram imperatriz e marquesa, é necessário entender a relação de ambas com o ponto que tinham em comum, obviamente, Dom Pedro I. O casamento de Dom Pedro, à época príncipe herdeiro do Império Luso-Brasileiro, e de Dona Leopoldina, arquiduquesa austríaca, filha do imperador Francisco I da Casa dos Habsburgos, na ocasião a mais poderosa potência terrestre da Europa, foi um arranjo diplomático como costumavam ser todos os casamentos da realeza; modos de se efetuarem alianças entre os Estados. E na conjuntura de 1815 a 1817, tempo que duraram as negociações do matrimônio, Portugal precisa bastante de uma aliança forte na Europa para defender seus interesses no Congresso de Viena. O todo poderoso ministro austríaco Metternich desenhara uma política ultraconservadora, concretizada na Santa Aliança, e pressionava Dom João a retornar à Europa e a retirar suas tropas da Banda Oriental. O príncipe regente desejava formar uma aliança com a Áustria que lhe permitisse prolongar sua estada no Brasil, agora já Reino Unido desde a Carta Lei de 16 de dezembro de 1815, e que anuísse as suas ambições no estuário do Prata. Metternich dera essas garantias a Dom João e prometera proteger Portugal, no caso da Espanha tentar anexá-lo, pois lhe parecia bastante vantajoso incluir o Brasil, um imenso reino americano, na sua rede antiliberal. Acertados os termos da aliança, restava pedir a mão da arquiduquesa solenemente, redigir o contrato de casamento, a ser celebrado por procuração e receber a futura rainha do Reino Unido a bordo da frota que a conduziria ao Brasil. Ao Marquês de Marialva, Dom Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho, coube todas essas tarefas, que ele realizou excelentemente, fazendo brotar na jovem noiva o amor por seu consorte real, a custa, é verdade, de algumas mentiras a respeito do caráter e interesses de Dom Pedro.
No entanto, as mentiras de Marialva, apenas facilitaram a ocorrência de algo a que se dispunha Dona Leopoldina pela sua formação moral e religiosa, como bem explica Carlos H. Oberacker Jr.na sua excelente biografia da imperatriz, “como se vê a educação dava os seus frutos; seguir a vontade dos pais em todos os assuntos e, de preferência, quanto à escolha do marido era o mesmo que cumprir a vontade de Deus que desta maneira não podia deixar de proporcionar a sua benção”[2]. Na educação das princesas da Casa D’Áustria estava fortemente presente a noção do Dever, associado a uma concepção de vida abnegada ao bem do Estado. Era um Dever religioso cumprir as ordens paternas ou do marido, pois assim está escrito no Livro Sagrado, e também moral, pois o pai-imperador saberá exigir as ações que resultarão no bem maior do país. E como obedecer era o que competia às princesas, fazendo-o elas assegurariam necessariamente sua felicidade. Assim, estava bem disposta Dona Leopoldina a casar-se no Brasil, inclusive pelos seus interesses intelectuais nas áreas de botânica, zoologia e mineralogia, que encontrariam na nova pátria uma fonte inesgotável de descobertas.
Seja devido às mentiras de Marialva ou à sua formação moral e religiosa, o fato é que Dona Leopoldina começara a se apaixonar por Dom Pedro ainda na Áustria, como demonstram sua disposição a aprender tudo que poderia agradar ao esposo, como a história e a língua de Portugal, a equitação, pois lhe dissera Marialva que, no Brasil, “todas as princesas andam tão bem a cavalo quanto picadores”[3], e a música, uma grande paixão de Dom Pedro. Na véspera de sua partida para o Brasil, no porto de Liorne, Itália, escrevera Dona Leopoldina à amiga condessa de Lazansky, “embarco com a resolução firme de fazer a felicidade do príncipe, meu esposo e de o tornar feliz e de me fazer amada por todos que me rodeiam”[4]. Todavia, estava Dona Leopoldina alertada por sua querida irmã Maria Luísa, ex-imperatriz de França, de que poderia haver felicidade sem amor, como no trecho seguinte: “rogo-te, no entanto, em nome do nosso amor de irmãs, não imaginar o futuro demasiadamente belo. Nós que não podemos escolher, não devemos nem olhar para as qualidades do físico nem para as do espírito – quando as encontramos, é sorte (não se deve acreditar naturalmente em tudo o que a gente diz), quando não as encontramos, também podemos ser felizes. A consciência de ter cumprido o seu dever, múltiplas e variegadas ocupações, a educação das próprias crianças, dão certo sossego de alma, ânimo sereno o que é a única verdadeira felicidade do mundo”[5]. Mas de que valem os sábios e prudentes conselhos de uma irmã experimentada das agruras do mundo para uma jovem noiva apaixonada?
Dona Leopoldina amou Dom Pedro mesmo antes de o conhecer, e o encontro tão esperado, que se deu no dia 5 de novembro de 1817, não diminui em nada esse sentimento, muito embora as intrigas da corte portuguesa, que tantos pesares ainda dariam à princesa, imediatamente tentassem separar o casal real. Logo chegou aos ouvidos de Dona Leopoldina a história do envolvimento do príncipe com a dançarina francesa Noemi Thierry, e da maneira terrível que se deu a separação, imposta pelo pai para facilitar as negociações do casamento. Frustraram-se, porém, os intrigantes, pois não estava no caráter da princesa tomar qualquer medida mais firme contra seu marido, e a sua reação a essa fofoca pode ter sido o início das boas relações que manteve o casal no tempo anterior ao fulminante encontro entre o príncipe e Dona Domitila.
Dona Leopoldina ao invés de se zangar ou demonstrar ciúmes, que provavelmente sentira, pois mesmo sendo princesa, era ainda humana, tratou o marido com bondade e doçura, procurando sempre se mostrar interessada nos vários aspectos da vida do marido, habituando-se a acompanhá-lo em seus passeios a cavalo, tocando piano para ele e ouvindo-o tocar os vários instrumentos que ele tocava, na verdade, a música era um dom inato do príncipe, que, além de tocar quase todos os instrumentos, cantava e compunha, embora sempre de maneira um tanto amadora, por não ter sabido cultivar bem o dom. A inglesa Maria Graham, que fora por um tempo camareira de Dona Leopoldina, já imperatriz, mas que se afastara do paço por exigência de Dom Pedro, assim resumiu os primeiro tempos do casamento dos príncipes: “Ela se tornou sua companheira constante nos passeios e excursões pelas florestas selvagens que envolvem o Rio por todos os lados, e nos estudos que ele prosseguiu com maior ardor do que antes sob a direção da esposa. A determinação desta, de não magoar ou chocar uma alma recém-ferida, obteve senão a mais calorosa afeição do marido, ao menos sua total confiança e completa estima”[6]. Assim percebe-se que Dom Pedro veio a amar sua esposa, ainda que de forma diversa de como amaria Domitila, pois seu conceito de mulher não se desligava da beleza física e do sexo. A questão da beleza de Dona Leopoldina é deveras polêmica; os embaixadores portugueses responsáveis pela articulação do acordo de casamento com a Áustria evitaram se prender as características físicas da então arquiduquesa, embora Rodrigo Navarro de Andrade a tenha descrito como de “agradável presença, cor de carne admirável, muita frescura, todas as indicações de próspera saúde”[7], Alberto Rangel, um grande biógrafo da vida amorosa de Dom Pedro deu uma descrição repugnante da futura imperatriz, mostrando-a como corcunda, com o que não concordam outros testemunhos. Carlos H. Oberacker Jr. por outro lado, descreveu Leopoldina como bela, mas também lhe ressaltou mais as virtudes e qualidades morais. Penso que talvez a imagem de Dona Leopoldina como horrenda tenha origens no seu aspecto deteriorado pelo clima brasileiro, pelos sofrimentos e pela miséria – além de uma simplicidade peculiar no vestir –, que parece ainda pior em comparação com a figura de Domitila, que com certeza atingiu seu auge de esplendor nos últimos anos de vida da imperatriz.
A passagem mencionada acima de Mrs. Graham mostra que Dona Leopoldina tentara fazer o marido progredir nos estudos, mas nesse quesito não logrou sucesso, pois não estava na natureza de Dom Pedro fixar a atenção por tanto tempo em assuntos tão pouco práticos e entediantes. Mesmo exercendo toda a sua paciência, Dona Leopoldina não conseguiu influenciar o marido nesse ponto, pelo menos nesses primeiros tempos de união; mais tarde, na complexa conjuntura da Revolução do Porto e do processo de Independência, Dona Leopoldina já terá conquistado a confiança do marido, no entanto, sempre foi este quem ditou as regras do relacionamento, muitas vezes de forma violenta e bruta, com o que dificilmente se acostumou a refinada princesa austríaca.  Enganam-se porém os que pensarem que essas maneiras bruscas poderiam diminuir o sentimento da princesa pelo esposo, o amor desculpava todos os defeitos. O trecho seguinte, retirado de uma carta confidencial da princesa à irmã predileta, mostra bem essa ação enganadora do amor sobre o juízo da esposa apaixonada, “Estou feliz graças a Deus, pois Deus me dá muita serenidade e paciência e encontrei no meu esposo verdadeiro amigo e nobre homem. Quero descrevê-lo a você com poucas palavras e com toda franqueza, convencida de que esta carta não chegará a outras mãos senão às suas, minha querida. Com toda franqueza, diz ele tudo o que pensa, e isso com alguma brutalidade; habituado a executar sempre a sua vontade, todos devem acomodar-se a ele; até eu sou obrigada a admitir alguns azedumes. Vendo entretanto, que me chocou, chora comigo, apesar de toda a sua violência e de seu modo próprio de pensar estou convencida de que me ama ternamente; apesar do retraimento resultante de numerosos acontecimentos infelizes na sua família [...] todo o seu pensamento me é conhecido”[8].
Muitos dos posteriores sofrimentos de Dona Leopoldina foram agravados por sua crescente solidão na corte do Rio de Janeiro. Ainda nos tempos de Dom João, a nobreza cortesã dividira-se em três grandes grupos, os do Rei, os da Rainha e os do Príncipe Herdeiro, cada um dos quais procurava diminuir o prestígio dos outros e conseguir mais vantagens junto aos soberanos. De Dona Carlota Joaquina, Leopoldina logo se afastou, não conseguindo conviver com o comportamento desregrado e intrigante da sogra. Com o sogro Dom João, a princesa sempre teve relações bastante cordiais, seguindo à risca os conselhos do pai Francisco I, dificultadas apenas pelas tensões existentes entre o rei e seu filho. Não se pode dizer jamais que Dom Pedro não respeitasse os pais, inclusive a mãe, mas o rei era influenciado pelos nobres cortesãos ao seu redor, que manipulavam Dom João para manter o príncipe afastado dos negócios do reino. Afastada do rei, Dona Leopoldina não pôde sequer desfrutar a companhia de seus conterrâneos que com ela vieram da Europa, pois os cortesãos portugueses, e o próprio Dom Pedro, desconfiavam da presença de estrangeiros nas dependências do paço; rapidamente a princesa foi rodeada por damas e cortesãos portugueses.
A obediência de Dona Leopoldina às exigências despropositadas de Dom Pedro era indicada pelos preceitos rígidos de sua educação e pelos conselhos de seu pai, a educação das princesas da Casa D’Áustria impunha a obediência à vontade do pai e do marido (“Conservarei no meu coração as boas instruções que recebi dos meus pais e das pessoas que se encarregaram da minha educação” retirado das “Resoluções” de Leopoldina, e em carta a seu pai, “Cumpri perfeitamente o que o senhor, mui caro pai, tinha a bondade de me dizer, e lhe agradeço ainda muitas vezes por todos estes bons conselhos, pois é somente agora que percebo, como ando bem, seguindo-os à risca”[9]). Não cabia a Dona Leopoldina outra atitude que não a submissão, pelos motivos já mencionados, por seu amor a Dom Pedro e pela situação social da mulher nos países ibéricos, e no Brasil, no início do século XIX. O ideal dominante de mulher era o de um conjunto de qualidades passivas, Oberacker muito propriamente cita Gilberto Freyre, “Da mulher não se queria ouvir a voz, a não ser pedindo vestido novo, cantando modinha, rezando pelos homens; nunca aconselhando ou sugerindo o que quer que fosse de menos doméstico, de menos gracioso, de menos gentil; nunca metendo-se em assuntos de homem”[10]. Dona Leopoldina não quis romper essa tradição, pois pensava sabiamente que somente assim chegaria a influenciar Dom Pedro, à medida que ele visse nela a figura da mulher ideal. O preço disso para Dona Leopoldina foi o crescente isolamento do restante da corte, dependendo cada vez mais dele para tudo.


[1] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 3, Tomo II, p 694 (História dos Fundadores do Império).
[2] OBERACKER JR. , Carlos H. A Imperatriz Leopoldina, Sua Vida E Sua Época. Ensaio de uma Biografia. Conselho Federal de Cultura, 1973, p 56.
[3] Idem, p 98.
[4] Idem, p 100
[5] Idem, p 58.
[6] SOUSA, Octavio Tarquínio. A Vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. Volume 2, Tomo I, p 112 (História dos Fundadores do Império).
[7] Idem, p107.
[8] OBERACKER JR. , Carlos H. A Imperatriz Leopoldina, Sua Vida E Sua Época. Ensaio de uma Biografia. Conselho Federal de Cultura, 1973, p 127.

[9] Idem, p 136.
[10] Apud, p 137.


D. Leopoldina na Ilha da Madeira.
Óleo sobre tela, 1817. Museu Histórico Nacional - RJ



D. Leopoldina demonstra sua privilegiada formação intelectual em reunião com políticos do 1º Reinado



D. Leopoldina e suas filhas e filhos (todavia, apenas uma pequena parte dos descendentes do imperador seriam filhos da imperatriz)


Ficheiro:Debret-desembarque.jpg
 Desembarque da princesa Leopoldina. Aquarela de Debret, 1817. Museu do Açude, Rio de Janeiro, Brasil



O juramento constitucional da Imperatriz D. Leopoldina

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