segunda-feira, 18 de abril de 2011

A marquesa & a imperatriz - Parte 4 - A ascensão da marquesa e a queda da imperatriz

A situação política em 1826 era muito complicada e adversa ao imperador, a guerra no Sul, o pagamento da indenização a Portugal pelo reconhecimento da independência, a divisão entre portugueses e brasileiros, em acirrada competição pelos melhores cargos na máquina pública, tudo isso fizera cair a popularidade de Dom Pedro, e a sua ligação com a viscondessa de Santos era aos olhos do povo tão prejudicial à nação quanto os demais problemas citados acima. Mostrando mais uma vez sua impulsividade e desprezo a qualquer tentativa de limitar seu poder, Dom Pedro instala Domitila em um palacete vizinho ao paço, facilitando sua união a ela, que satisfazia assim sua sede por uma vida de luxo e fausto. Em seguida, o imperador faz o impensável, decide reconhecer sua filha com Domitila, colocando-a na posição que sua ascendência paterna exige. No aniversário de dois anos de Dona Maria Isabel, seu pai a reconheceu através do documento seguinte: “Declaro que Houve uma Filha de mulher nobre e limpa de sangue, a qual ordenei que se chamasse Donas Maria Isabel de Alcântara Brasileira, e a mandei criar na casa do Gentil Homem Da Minha Imperial Câmara João de Castro Canto e Melo. E para que isto a todo tempo conste, Faço esta expressa Declaração, que será registrada nos livros da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, ficando o original em mãos do mesmo Gentil Homem da Imperial Câmara para ser devidamente entregue à dita minha Filha, com seu título. Palácio do Rio de Janeiro, vinte e quatro de maio de mil oitocentos e vinte e seis, Quinto do Império e da Independência. Imperador”[1]. Além de reconhecê-la, Dom Pedro ainda deu à filha o título de duquesa de Goiás e o tratamento por alteza. Tudo foi comemorado com uma festa esplendorosa, em que brilhou a estrela da viscondessa de Santos.
Outra afronta pública à imperatriz foi o episódio da festa em comemoração do reconhecimento do príncipe imperial na qualidade de herdeiro do Trono, a 24 de agosto. A viscondessa e sua filha foram colocadas em posições semelhantes à da imperatriz e seus filhos, o que chocou grandemente os convivas e aumentou o sentimento de inferioridade de Dona Leopoldina. Seguramente, os últimos meses foram de grande sofrimento para a imperatriz, que sofria principalmente por ver seus filhos misturados aos filhos da outra, que ela tratava em suas cartas por bruxa ou feiticeira. Os sofrimentos causaram mudanças profundas no comportamento de Dona Leopoldina, ela tornou-se desconfiada das pessoas, pesava todas as palavras antes de manifestá-las e pensava criticamente e por conta própria sobre tudo o que via e vivia. Julgava a maior parte das pessoas da corte como tendo caráter corrompido, não fazendo amigas, e retraindo-se basicamente para o contato com o marido e os filhos. Torna-se deveras cautelosa, pois tinha que constantemente lutar contra intrigas e aborrecimentos. Mas tudo fazia por amor a Dom Pedro. A partir de meados de 1826, a relação dos cônjuges deteriora-se rapidamente, Dona Leopoldina pensou em abandonar o paço e internar-se no Convento da Ajuda, enquanto esperasse por uma decisão do pai a respeito de seu destino, pois lhe pedira abrigo para retornar à Áustria. Todavia, a imperatriz não chegou a saber a resposta do pai, que, aliás, dificilmente seria positiva, que preso à rede política de Metternich nada poderia fazer.
Os sofrimentos da imperatriz eram maiores que apenas os ciúmes e o amor frustrado, deviam-se também aos constantes apertos financeiros a que lhe sujeitava o imperador, extremamente econômico. Ela era obrigada a contrair empréstimos com parentes, amigos, servidores e até mesmo agiotas para poder honrar seus compromissos e manter os seus gastos com obras beneficentes e de caridade, ditadas pela formação moral e religiosa da imperatriz, mas que Dom Pedro considerava desperdícios. Mas para Domitila, o imperador era bastante liberal, sustentando sua vida luxuosa.
Assim, Dona Leopoldina padecia por seu amor, por sua permanente crise financeira, por sua solidão, como já se disse, sua vida na corte restringiu-se a Dom Pedro, que ao se afastar, deixou-a inteiramente só, e também por males físicos. Ao retornar da Bahia em final de abril, ela já se queixara de dores reumáticas nos braços e de um entorpecimento da mão direita, essas mesmas dores retornaram em junho. Cada vez mais fraca, Leopoldina enfrentou seus últimos sofrimentos com a elevação de Domitila à condição de Marquesa de Santos e uma grave ofensa feita por Pedro antes de sua viagem ao Sul do país, para vistoriar as condições do exército. Desse incidente, a imperatriz queixou-se na sua carta de despedida, “ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças”[2]. Não se pode dizer se a imperatriz recebera do marido o pontapé no ventre que a lenda popular afirma, o que não seria completamente estranho à personalidade de Dom Pedro, mas não há texto confiável que corrobore essa hipótese. Mais provável é que Dom Pedro tenha feito um desagravo à imperatriz, agravado aos olhos da sofredora esposa por ter sido na frente da amante, identificada como a causa de todos os seus padecimentos.
Assim, enquanto o marido estava no Sul, a imperatriz entrou em agonia, com febres e dores reumáticas, insônias, agitação, dores de cabeça, fastio da gravidez bastante complicada, pois fazia menos de um ano que dera à luz o último filho. Dona Leopoldina sofre um aborto e seu quadro piora, vindo a falecer no dia 17 de dezembro pela manhã. Toda a corte culpa o imperador e a marquesa pela morte da imperatriz.
Em sua carta de despedida, Dona Leopoldina igualmente culpa Domitila pelas suas desgraças e pede ajuda aos filhos órfãos de mãe, como no trecho que segue: “(...) chegada no último ponto de minha vida no meio dos maiores sofrimentos (...) ouvi o grito de uma vítima que de vós reclama – não vingança – mas piedade e socorro do fraternal afeto para inocentes filhos que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autoras das minhas desgraças (...) há quase quatro anos, minha adorada mana (...) por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro”[3]. Por último, a imperatriz agonizante reafirma seu amor ao marido que tanto a fizera sofrer.
A dor de Dom Pedro ao saber da morte da esposa é sincera, em um soneto que compõe para expressar sua dor, o imperador reconhece que fora amado “com o maior amor”, mas que na esposa admirava “a honestidade”, nela vendo um exemplo “D’honra, candura, bonomia e caridade”[4]. Todavia, nesse poema, Dom Pedro não reconhece as dores que infligira à esposa morta.



Miniatura retratando a Marquesa de Santos (col. particular)




[1] Idem, p. 677.
[2] Idem, p 691.
[3] Idem, p 688.
[4] Idem, p 695.

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