quarta-feira, 13 de abril de 2011

Have You Been To Bahia?

A década de 1930 foi marcada por uma escalada de tensões, crises e conflitos que desaguaram na 2ª Guerra Mundial a partir de 1939. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, a grande crise do capitalismo, iniciada com o quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929, foi a causa próxima do novo conflito mundial, na medida em que afundou a Alemanha de Weimar em gravíssima crise econômica, o que deu espaço para o avassalador crescimento do partido nazista.
Ao mesmo tempo que a situação político-econômica européia se deteriorava (à exceção da União Soviética, que não foi afetada pela crise devido ao seu isolamento em relação ao mercado capitalista), a crise não dava sinais de esmorecimento no continente americano em ambas as margens do Rio Grande. Em se tratando dos Estados Unidos, a crise provocou significativo rearranjo da ordem político-social, em que o Estado liberal foi progressivamente substituído por um modelo mais interventor, segundo as idéias do economista inglês de grande importância no governo de Roosevelt, Keynes. Essa transformação do Estado, nos EUA e na Europa, permitirá que Hobsbawm reconheça, nos anos posteriores à 2ª Guerra Mundial uma nova fase do capitalismo, o neo-capitalismo.
As transformações do Estado e da sociedade dos EUA comandarão uma mudança no seu relacionamento com os países da América Latina - mudança também motivada por uma disputa com a Alemanha nazista principalmente em relação aos dois maiores países da região, Argentina e Brasil. O colapso da economia estadunidense a partir de 1929 prolongou-se em uma crise nunca vista antes na história do capitalismo, o que inviabilizou, no curto prazo, uma política externa mais pautada na força das armas e em excursões militares, como era a política dos EUA para a América Latina até a década de 1930. Desde a guerra ibero-americana de 1898 que culminou com a independência de Cuba e a derrocada final do império colonial espanhol, a política dos EUA para seus vizinhos do sul foi caracterizada pela agressividade e pelo intervencionismo militar. Sua alcunha foi cunhada pelo presidente Theodore "Teddy" Roosevelt, foi a chamada a política do "Big Stick", ou do grande bastão, porrete . Tal política externa combinava bem com a conjuntura dos EUA nas primeiras décadas do século XX, uma potência continental em acelerada expansão, cujos valores econômicos, políticos e civilizacionais não eram contestados em parte alguma (a não ser pelos partidos e organizações de extrema esquerda, e pela URSS a partir da década de 1920)
O cenário internacional na década de 1930 era, todavia, bastante diferente, como começamos a ver acima. A crise de 1929 não abalara apenas a economia dos EUA, mas questionara a validade de seus valores políticos e culturais. Os partidos fascistas na Europa e na América colocaram em causa, a partir de um ponto de vista ultra conservador e à direita, a validade dos valores liberais defendidos pelos EUA através do american way of life - crítica também feita pelos partidos comunistas, socialistas e pelas organizações anarquistas, porém de um ponto de vista diametralmente oposto, â esquerda. Para agravar este cenário, a Alemanha nazista e a URSS colocavam-se cada vez mais como sérios concorrentes à supremacia econômica e cultural dos EUA.
Assim, não cabia mais uma política externa baseada exclusivamente na força das armas, como fora o Big Stick. Os EUA desenvolveram, a partir de então, uma política de aproximação cultural com seus vizinhos continentais, que ficou conhecida por Política da Boa Vizinhança.
Através dela, os EUA procuraram consolidar, pela via diplomática, sua posição de líder continental, buscando seduzir as demais repúblicas americanas com as promessas de riquezas, ascensão social e bem estar do capitalismo. Uma vez que a dominação econômica estava ameaçada, foi reforçada a dominação cultural, com ampla divulgação e glorificação dos valores da sociedade de consumo dos EUA. Foi o início, por exemplo, da exportação em massa dos filmes de Hollywood, que iriam reforçar os sonhos e ilusões em torno da "América", terra de belas mulheres, homens sedutores, prazer, diversão e onde a fortuna era possível a todos que se dispusessem a trabalhar duro por ela.
Por outro lado, os EUA também fizeram um certo esforço de aproximação com as diversas culturas dos seus vizinhos. Contudo, foi um esforço incompleto, na medida em que elas não eram compreendidas e valorizadas por si mesmas, mas engolidas pela fome do mercado estadunidense, que tudo transformava, e transforma, em mercadoria. Assim, se a figura da baiana fez sucesso nos EUA com Carmen Miranda, por exemplo, não foi a tradicional baiana de Salvador com seus rituais afro-americanos, mas sim a baiana atualizada no corpo de uma linda mulher que sabia cantar e dançar em inglês de um modo compreensível para a média população estadunidense.
O Brasil de Getúlio Vargas era uma preocupação significativa para os EUA ao final da década de 1930. Se, por um lado, a escalada das tensões na Europa indicava uma guerra iminente contra a Alemanha, por outro, o regime de Vargas, especialmente após o golpe de Estado Novo, em 1937, parecia se inclinar cada vez mais para a Alemanha. Por isso, os EUA procuraram reforçar seus laços com o Brasil, tanto na economia, quanto na cultura. Vale dizer que Vargas usou o assédio das duas potências rivais para ganhar as melhores condições para seu projeto de industrialização do país, procurando se equilibrar pelo maior tempo possível entre as pressões antagônicas dos EUA e da Alemanha.
A entrada dos EUA na 2ª Guerra, porém, aumentou a pressão sobre Getúlio, que por fim se aliou aos EUA,
mesmo contrariando setores das forças armadas. Em troca da aliança, Vargas exigiu a assinatura de um tratado político-militar de caráter secreto.
Dando seguimento à política da boa vizinhança, os EUA reforçaram o discurso pan-americanista (uma só América para os americanos) e empregaram toda a força de sua massiva indústria cultural para glorificar seu modo de vida. São exemplos do uso político de Hollywood os muitos filmes de Carmen Miranda (que, em certa altura, foi a atriz mais bem paga dos EUA) e as animações de Walt Disney focadas no Brasil, com a criação do personagem Zé Carioca, uma síntese do modo como os estadunidenses viam os brasileiros, notadamente os cariocas.
Abaixo vão alguns videos do período:

http://www.youtube.com/watch_popup?v=_mQHr8bAojU&vq=small

http://www.youtube.com/watch?v=JSBxYcxnhf8

http://www.youtube.com/watch?v=ApwsoEsCm70&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=eDwQN4UeF8E

http://www.youtube.com/watch?v=oGWSzMfTb-Y&feature=related

Consultem abaixo, no site cineplayers, as fichas dos filmes citados:
http://www.cineplayers.com/filme.php?id=8289
http://www.cineplayers.com/filme.php?id=9095
http://www.cineplayers.com/perfil.php?id=27518

Nenhum comentário:

Postar um comentário